As estilhaçadas cores da luz – II

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(Uma narrativa sobre a não-narrativa que se vive…Descrevê-la será uma solução? Não. Mas pelo menos já se obtém o começo da história. Porque toda história, toda trajetória, tem de ter um começo.)

“Por onde se começa? O que é que existe antes de existir um começo…um ponto de início?” Pegava-se conjecturando sobre a causalidade das coisas, sobre o que move o Homem e como se dá o primeiro passo em direção a uma descoberta, a uma empreitada para a qual se lança sem se conhecer o destino. No entanto, ainda mais simples que isso, bem mais corriqueiro e próximo, retorcia os miolos pensando no que preparar para o almoço, em tentar escrever um novo projeto, um novo texto ou aprender algo novo. Produzir algo interessante, criar enlaces e sentidos. Mas como começar? Por onde se começa? Estaria em suas mãos e não há receitas. Lembrava-se que alguns dos melhores pratos nasciam da excassez de ingredientes disponíveis no momento, da falta de escolhas…Poucas opções exigem mais criatividade. Sim! É isso! Então talvez se experimentasse compor um texto usando somente palavras que começam pela letra L ou T. Talvez teria aí seu grande estímulo propulsor da idéia. Mas há…De onde vêm as idéias? – questionava-se. E logo tudo era vago demais e a vida não lhe proporcionava subsídios com que nutrir o gesto poético. Lembrava-se do conselho de Rilke ao jovem poeta: fuja dos grandes assuntos! Já tanto se cantou a lua, o céu e as estrelas…tanto e com tão maior talento do que o dela. Tédio. O que fazer para recuperar os valores da intimidade perdida? Como erguer paredes para conter o mistério de si?

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As estilhaçadas cores da luz – I

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Les colloers brisès de la lumiere…

(Um corpo-a-corpos. Múltiplos pontos, como estrelas no firmamento da pele. Fragmentos que ainda estão em busca de reordenação. Mas são fragmentos brilhantes…Estilhaços que brilham, ainda que desvinculados entre si. Que será que está a se passar nesse corpo? Como desenhar o contorno da constelação que reúne essas partículas? Como mapeá-las??)

O depoimento:

“Sinto-me hoje presa no mundo que criei com minhas próprias escolhas. Tenho desejo de me experimentar, criar, aprender vários ofícios, me reinventar, descobrir quais imagens, quais sonhos me povoam, me habitam. Sinto-me vazia, sem aspirações, nem desejos, nem paixões. Vazia. Sinto-me neutra, sempre resolvendo problemas, cuidando das coisas de ordem prática, a casa, a comida, as roupas, os cheques, as contas, os documentos e pagamentos…tenho dificuldade em me dedicar a mim e me derramo para as necessidades de fora, do outro, do grupo. Acho que nem é mais por fuga e sim por hábito. Por não saber existir de outro jeito. Quando estou parada, sem ter o que fazer, quando eu poderia fazer algo meu, me ocupar dos meus impulsos interiores, do tal do ‘ócio criativo’, falta-me força ou coragem…ou ambas. Às vezes algo me passa, uma idéia…talvez escrevesse um texto ou pintasse um quadro. Mas é volátil, me escapa. As coisas vêm e deslizam de meu interior sem que eu as consiga reter e transformá-las, materializá-las, eu as perco. E então vem o desespero me assombrar e, para afungentá-lo, de novo me vejo buscando o que preparar para o jantar ou algo que restou por fazer. O fora, o fora! E como tampouco sei entregar-me satisfatoriamente a essas tarefas cotidianas, as faço mal, sempre pela metade ou sem presença, sem atenção. Não estou lá, nem estou aqui, em parte alguma me reúno. Sou como as cores fragmentadas da luz estilhaçada em cacos de cristal. Sou as posssibilidades de brilho, de vida, de beleza e radiância espatifadas, quebradas em milhares de partes. Como encontrarei meu modo de existir em tais condições? Como poderei reverberar meu ser de tal maneira? Como pôr o fora para fora?”

Fragmentos – I

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“Monogresso”. Esta palavra estranha e sem nexo me desperta, ressoando junto aos restos de um sonho em que me via sentada numa escrivaninha muito antiga sob a luz de uma lamparina, escrevendo à pena minha auto-biografia. Neste documento, eu declarava que minha existência não se inscrevia propriamente como uma trajetória linear, como uma cadeia de eventos sequenciais rumo a algum horizonte ou qualquer finalidade evolutiva; minha existência se dava, isto sim, de maneira espiralada, simultaneamente ascendendo e descendo, nunca culminando em nada e em parte alguma. Aprofundava-se abismo adentro e então, subitamente, se erguia muito alto para o céu. Idas e retornos, reiterações e curvas. Não uma historia de progresso, de uma ‘escalada individual’, sempre avante, sempre a frente…Mas um monogresso! Um monogresso. E foi isso. E ponto. Assim conlcuí o relato de minha biografia. Como se essa palavra exprimisse algum sentido suficientemente claro e lapidar, capaz de sintetizar com exatidão aquilo que havia sido, em essência, a narrativa deste meu percurso enredado e tecido nos meandros do tempo. Um monogresso.

o tecido japonês

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Interessante observar como os japonêses se comportam diante de um desastre natural. Terremotos, tsunamis, vulcões, furacões, enchentes são talvez modos violentos de expressão das intensidades que se movimentam sobre e sob a superfície terrestre…Forças desagregadoras, dispersivas, que esfacelam a ordem social.

Como é possível que o Japão se reconstrua após tantos episódios devastadores? Como é que este país se reergueu após duas bombas nucleares e tornou-se uma potência?

Vejamos o corpo cultural nipônico…Disciplina, organização, abdicação do eu em favor do coletivo, regras que cumprem uma função articuladora, ordenadora. Essa força de agregação se expressa num tecido social que, se por um lado, tem como consequências negativas uma exagerada contenção das gestualidades e dos traços individuais, além de uma sobrecarga emocional pelo excesso de auto-exigência, por outro lado esse corpo foi treinado na resposta aos comandos disciplinadores.

E a base disso não parece ser alguma ideologia autoritária instalada de cima para baixo, mas fruto de uma tradição que valoriza a contemplação, o minimalismo, a cerimônia, o respeito à regra. O Zen é uma ideologia que prosperou e recebeu contornos nesta cultura, para a qual a repetição da forma e dos rituais que dão continuidade à linhagem e preservam a tradição representa um grande valor.

É um corpo tecido nesses traços que vemos reorganizar-se, reagrupar-se após violentas rupturas e cataclismas naturais. Um corpo-bambu que se dobra sob pressão do vento, recebe o peso, cede recolhendo-se, contraindo-se…para depois bombear-se de volta para cima, reconstruir a vida e recompor a estrutura social.