Assim na África, como aqui

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Há dois meses, tive a oportunidade de conhecer uma figura que, cinco anos atrás, decidiu partir para a África em busca de uma experiência mais profunda e intensa com a natureza. Desde 2008, a designer e fotógrafa Janaína Matarazzo, de 36 anos, vive num safári camp em Botswana, país que concentra algumas das últimas reservas de vida selvagem ainda intocadas pela civilização. De propriedade do ambientalista inglês David Dugmore, o Meno A Kwena é um acampamento permanente todo composto por tendas, localizado nas proximidades de três grandes parques nacionais, onde se realizam os safares fotográficos. Tudo ali se fundamenta sobre questões territoriais. As cercas parcialmente protegem e separam os animais dos homens e de seus rebanhos, num convívio tenso e em constante atrito. São cercas desgastadas e cheias de fendas por onde escapa, vez por outra, a rês desgarrada, errando o caminho para o lado dos predadores… Ou por onde uma hiena a caça de alimento se entranha, invadindo as zonas humanas e causando um estrago ou outro. Caçadores matam animais selvagens para se alimentar ou para proteger o gado. As águas irrigam e nutrem os rios que nutrem a vida. Advém o período de estio, que pode durar sabe lá quantas décadas, secando os leitos e matando de sede as manadas ou forçando migrações em busca de água. Aqui nasce um filhote de lagarto que, ali adiante, morrerá nas mandíbulas de uma serpente. Do alto das colinas, ao sol a pino, pairam as aves de rapina armando a próxima caçada. Entre os homens, a presença de um predador invisível – a AIDS – e o desafio de sobreviver da pecuária em terra hostil, fomentando a busca por projetos de turismo sustentável como alternativa econômica que ponha fim à matança de animais. Janaína Matarazzo faz parte de um grupo de estrangeiros egressos de diversas partes do planeta, que chegam ao Meno A Kwena atraídos pela oportunidade única de vivenciar tal atmosfera. Janaina MatarazzoAntes de ir pra lá, ela já fora filiada ao Partido Verde e trabalhara em projetos sociais da Prefeitura de São Paulo. Quando ainda mal se ouvia falar em Terceiro Setor, ela estava mergulhando nesse âmbito em busca de programas onde pudesse contribuir e produzir diferença. E foi assim que ela acabou chegando à África, realizando um antigo sonho de ver de perto majestosos leões reunidos no fim da tarde, assistindo solenes ao por do sol. Mas, diferente da maioria dos visitantes que rumam para lá interessados apenas no safári turístico, a fotógrafa engajou-se de cara no projeto e, há cinco anos, vem atuando junto à comunidade local e propondo soluções que reconciliem sobrevivência econômica e preservação ambiental. Uma equação que, via de regra, enfrenta barreiras culturais e políticas. Nessa entrevista, Janaína nos oferece um relato de sua trajetória e experiência em solo africano, pontuado por imagens magníficas dessa paisagem que ela vem fotografando nos últimos dois anos e reunindo em seu site Nature Inspires Life. Como proposta de trilha sonora para essa leitura, ouviremos uma das faixas de um disco gravado in loco com personagens locais, que também trabalham no camp e, nas horas vagas, expressam toda sua ancestralidade musical. Outros temas – como infância e família – também fizeram parte da conversa, mas perderam terreno na hora da edição. Relendo o material, acabamos notando como a vida adulta nos absorve em intensos desafios de sobrevivência, exigindo renovados esforços e caminhos que garantam nossa continuidade. Em tal contexto, onde o filhote de leão cresce e vai seguir seu próprio rumo, a família já não é mais o assunto e sim o ‘estar no mundo’. Nascer, crescer, amadurecer, produzir, morrer…  Assim na África, como aqui.

Link: Entrevista com Janaína Matarazzo

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Oroboro

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Subitamente vi.

Vi meu rabo, de rabo de olho. Inalcançável…

Estendendo-se pelo infinito animal do meu profundo ser primitivo.

Vi minha longa calda deitada na escada evolutiva, sua ponta ultrapassando meus ancestrais primatas.

Vi a mim mesmo como um prisma multicolorido. Atado ao passado pelas nádegas, num rudimentar rabo de pavão.

E sobre o rabo sentei-me, constrangido.

‘Espírito encarnado em quatro patas’, é o que sou.

De imensas asas contraídas. Vôo pequeno, baixo e tímido na enormidade áerea.

Esculpi uma vida de cheia de sentidos com apenas cinco sentidos… E um rabo, que entrevejo pelo canto da retina.

Outro dia, vi um meu antepassado: um nabo, caído na esquina da feira.

Estava exatamente na rabeira da metamorfose vegetal que culminou anos depois em cérebro, identidade e coluna vertebral.

Culminou em mim: bípede, sublime e paradoxal.

Fingi não ver que entre o nabo e o espaço que havia entre mim e o nabo, havia o meu rabo. Minha metade sapo, a se esgueirar na estrada.

Incômodo e indiscreto rabo, sob o pino sol do Ser que ainda hei de conhecer.

Ser que um dia hei de me tornar.

Ser que ali está, bem na ponta da calda larga, a pairar por sobre os ventos que hão de me passar.

Um dia deixarei tudo para trás, pelo rabo. E, ao fim e ao cabo, nada mais levarei de mim.

Verei então o rabo despregar-se de vez e quedar-se também pelo caminho. Serei nada menos que um grão de areia.

Nada mesmo, nada.

O nado de um peixe regresso ao mar abissal. À fonte primeva.

Uma outra Eva. Inicial.

Serei nada, nado, peixe, areia. Verei, então, de rabo de olho, o meu grande rabo de sereia.

Sentado na vasta calda de um cometa como um girino cósmico, a flutuar fulminante pelo espaço sideral!

E serei absoluto, uterino…

O grilo angelical.

Trilha invisível

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Restará ainda uma palavra no céu de minha boca que nunca tenha sido trilhada?
Como floresta não mapeada, fora dos satélites?
Haverá lugar deserto que jamais conheceu traços humanos?
O rio, a fonte, a água que nunca banhou o corpo nu de um outro como eu?
Haverá algum idioma desconhecido, estrangeiro a toda a espécie,
Como serpente desprovida de nome em latim?
Um por-do-sol jamais visto de altura, pico ou monte pelos olhos de um outro como eu?

 Haverá ainda um vazio que, escondido em qualquer parte, justifique a existência do vocábulo?

Lanço novas cordas ao abismo… Porém, convém não descê-lo.
Lanço pedras óbvias no infinito, para que ninguém mais as possa ver.

Desenhei a custo, a pena e paciência
A cratera imaginada dos meus espaços internos
Feita do avesso dos meus dias
Apenas pela inédita alegria de poder anunciar, só para mim
Um amanhecer desnudado de raios.
(Fenômeno desconhecido aos geofísicos e aos psiquiatras)

Deito-me em areias virgens, de coloratura indefinível
Onde palavras estranhas me acolhem
Na vasta e escura ausência de sentido ou valor semântico.

Penso então que ‘isto sim é o silêncio’ – mas penso isso sem palavras para pensar.           E repouso absoluto sob céus primordiais.
Às minhas costas, vejo apagarem-se as últimas pegadas que deixei momentos atrás,
quando eu ainda era um outro, como eu.

Por fim, perco-me também do tempo, completamente só
Atento ao desabrochar de uma flor rara
No topo da pele que separa este corpo
Do resto do universo.

Sobre Juanita – uma (auto)crítica

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O primeiro artigo que publiquei numa revista – ainda como estudante de jornalismo – era sobre o antropólogo e xamã Carlos Castañeda. Na época, a editora dele no Brasil enviou-me um exemplar de todos os seus livros, mas confesso que não me interessei muito e li bem pouco. Eram tantas as bobagens que se falavam e faziam, com base em leituras rasas e distorcidas de sua obra, que eu mesma não me sentia apta a penetrá-la, preferindo deixá-la para outro momento. Dez anos depois, vou eu assistir a um ensaio do espetáculo Juanita, dirigido pela bailarina Tica Lemos e composto por ela, Betina Turner, Cristiano Bacelar e Maia Gongorra.  Se não é fácil falar sobre xamanismo ou Don Juan, o que faço agora tampouco chega a ser mais que balbuciar algo a respeito das impressões que tive da pesquisa do grupo.

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Fui ao ensaio preparada para ver um ‘trabalho de dança’, esperando com isso encontrar um determinado eixo dramatúrgico, uma determinada estrutura de ações, motes coreográficos, talvez um uníssono e um certo corpo de intérprete enquadrado nesta ou naquela linguagem. Mas a história ali versa sobre outro assunto, muito mais sutil e vibracional, que não pode ser contido em qualquer desses formatos pré-existentes. Tratam-se de corpos. E corpos tão só, apenas. Como assim ‘corpos apenas’? São corpos que se propõem o desafio de viver os atravessamentos das forças e das energias ao longo da jornada pelo deserto descrito por Castaneda. Criam no palco um micro ambiente onde é possível ver, no espaço-tempo concentrado da cena, o desenrolar desses diversos estados e personagens que transitam nos nossos corpos pela vida a fora. E ali estão artistas que não pretendem mascarar ou diminuir a dimensão dessa experiência tão humana por meio de gestos ensaiados, marcações e outras fórmulas do gênero.

Há ali um espaço de liberdade abissal nada simples de se vivenciar. Coisas acontecem… Um contato, uma frase, um tapa no chão… E foi…  Alguém se senta, outro vira-se de lado… E acontece ali, aqui, uma composição… Desmancha-se novamente. Como lidar com isso? Quer dizer então que ‘tudo é permitido’? Não, não é isso. Há nitidamente um rigor. Um rigor difícil, porque não está nas formas, mas na honestidade com que cada um se entrega ao tema. Não há truques. A regra é ser íntegro e estar ‘à espreita’, estabelecendo territórios moventes entre o caos ritual e a linguagem compartilhada. Há um respeito e um senso de responsabilidade para com o assunto que atinge as raias do entendimento e daquilo que é possível comunicar. Quando os atos já  não dão conta de dizer, resta sustentar a atmosfera. IMG_0529

Levanta-se, então, uma questão que não é respondida, mas permanece acesa: como atingir esse lugar de ‘loucura controlada’, de que fala Castaneda, sem se despojar de certos signos, modos e códigos de comportamento que mantêm os elos entre nós e a realidade consensual? Se é justamente a partir dessa desconstrução de si e dessa perda da história pessoal que Castaneda torna-se apto a penetrar nesses outros universos de sua própria humanidade, de que outra maneira se poderia trazer tudo isso ao palco senão abandonando também todos os modelos e a lógica do senso comum para encontrar uma outra práxis critativa mais adequada ao tema? Quais as ferramentas necessárias, qual a bússola deste trabalho? Penso em quantos tapas na cabeça não terá levado aquele obtuso antropólogo ao longo de todo seu percurso iniciático. Tapas que fazem tremer as bases e surtirem respostas de lugares desconhecidos em nós mesmos.

Bem, voltoIMG_0542 pra casa e passo o resto do dia profundamente incomodada e inquieta. Por que? Terá sido algo que o trabalho me provocou? – me pergunto. Não, era eu mesma que me aborrecia. Não estava me aguentando! Ocorreu que, terminada a apresentação do work in progress, o grupo gentilmente convidou-me a abrir os comentários. E eis que, quando dou por mim, lá estou eu disparando uma série de venturosas impressões acerca do espaço em torno que me pareceu muito amplo, da densidade dos territórios, do jogo de foco entre as ações e blá blá blá… Eu pedia a eles que me fornecessem um ‘mapa’ que desse conta de dirigir meu olhar, que me dissesse para onde ir! E eles achavam tudo muito pertinente IMG_0540e acolhiam. Já a atriz Georgete Fadel, que os acompanha há muitos meses colaborando com o projeto, observava-me com certa compaixão, como se entendesse onde eu me encontrava, porque também ela já se percebeu ocupando esse lugar.

Que lugar é esse? É o lugar daquele Castaneda cientista tapado e de visão estreita, desejoso de estudar sobre xamanismo, mas sem ter a real dimensão de seu objeto de estudo. O buraco, bichô, é bem mais embaixo! E eu, de cara, me mostrei assim incapaz de perceber algo de muito raro, singular e delicado que está sendo tecido por aqueles quatro corpos há, pelo menos, mais de um ano. Existe ali uma inocência lúcida que beira o insuportável, porque tange esse lugar frágil e precioso que se esconde embaixo de quilos de camadas e máscaras sociais. É o elemento mais vivo, mais potente e mais suave. Eu sentia a amplidão do espaço e quão vasto pode ser esse infinito, que se alarga nas profundezas de ser humano. Mas é tão perturbador presenciar algo assim inocente e despretensioso que eu, sem pestanejar, tratei logo de ir me defendendo da experiência por meio de um arsenal de frases bem articuladas e perfeitamente triviais.

IMG_0541Porque não é isso o que fazemos todo santo dia? É tão complicado para nós suportar viver como um ser pulsante, corajoso e aberto ao acontecimento, que respondemos com truculência a qualquer convite que nos incite à perigosíssima aventura de viver na instabilidade dos eventos que nos atravessam. Assassinamos milhares de Cristos por dia, no esforço de nos proteger de tudo aquilo que carrega uma pureza e uma fragilidade desconcertantes, porque desaprendemos a viver na potência máxima desse humano vulnerável. Tornar-se o super-homem nietzschiano, capaz de trafegar por realidades múltiplas e de se submeter radicalmente à ação dessas forças do universo, custe o que custar… Quem banca viver assim?Nossa miséria e presunção garantem algum conforto e bem-estar, mas nos privam da vertigem da queda que faz gerar o vôo. Fala-se tanto em liberdade e, no entanto, afugenta-se qualquer um que chegue balançando as chaves da gaiola. É curioso isso. Mas eu quero acreditar que já cumpri meu papel nesse quesito e presto agora meu testemunho da total idiotice que se mostra em mim, vez por outra. Dá-lhe na testa! Sejamos honestos, ora essa! Por que não paramos todos com tanto fingimento e tanta auto-importância! Tudo isso é realmente estupidez. Sou lenta, mas a ficha por fim caiu e me dei conta de que a vocação de Juanita é trazer à tona este Castaneda medroso e limitado que há em nós, pois só então poderemos começar a aniquilá-lo – com muita calma e estrutura.

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Juanita, então… É o quê?

É dança? Teatro? Performance? Ritual? Aqui cabe uma ajuda de Deleuze: Juanita é isso e isso e isso e isso e…Juanita não é É, mas E. Desafio às identidades, adição de imagens, sucessão de espasmos, desdobramento de mundos, desfiguração das caretices pegajosas, um adstringente da percepção estética e, acima de tudo, um amoroso e edificante tapa na cabeçudice! Passado o susto do chacoalhão, espero que outros, como eu, experimentem também o sopro fresco e altamente inspirador: um acreditar na beleza e na poesia inerentes aos corpos em seu ofício de viver, produzindo-se a si mesmos e tentando controlar a maluquez, misturada com a lucidez. Que este seja apenas o primeiro de muitos projetos dessa linha.

Obrigada Juanita.

Corp.Ante.Corpo

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Eu e Regina – Cabelos curtos com reflexos loiros, uma franja simpática, grampinhos de cada lado, um lenço no pescoço e um desafio: amadurecer.

Entramos na sala onde ela atende. Saco da bolsa um Iphone 3, preparo o gravador e disponho o aparelho sobre a bancada, próximo a Regina. Ela o observa com curiosidade. Puxo então mais um IPhone, desta vez da quarta geração, e preparo a câmera fotográfica. Ela olha para um, olha para o outro. Pergunta que gravador era aquele que eu estava usando e informo que é um aplicativo do próprio telefone. Ela se empolga. Pergunta então sobre o outro e eu explico que com um estou gravando o áudio e com o outro posso fazer pequenas filmagens e fotografar. “É pelo instagram?”, pergunta entusiasmada. Aos 71 anos, Regina Favre é completamente aberta a esses dispositivos tecnológicos, que têm propiciado valiosa contribuição ao seu trabalho como terapeuta e formadora. Desde o surgimento do vídeo no Brasil, na década de 80, o recurso da filmagem é elemento substancial em seus processos de pesquisa e ensino. Após um rápido ensaio fotográfico – em que nos clicamos mutuamente – chega um café fresco e, com isso, fecha-se a porta. Pronto. Iniciamos, por fim, a entrevista… Ou algo mais: nos lançamos à possibilidade de vivenciar um acontecimento que se produza ali, como fruto do encontro.

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O que é o AQUI?

Nathalia – Bom, eu tenho mais um menos um mapa, mas nada muito fechado. Então nós vamos construindo isso e sentindo por onde vai, ok? Gostaria de começar da forma como você costuma iniciar seus encontros no Seminário da Biodiversidade Subjetiva, que é sobre a noção de ‘aqui’…O que é o ‘aqui’, Regina?

Regina – Então, as pessoas pensam muito o aqui como o ‘aqui-agora’…

Nathalia – É, é exatamente por isso que trouxe esse assunto…As pessoas dizem: ‘ah, vamos viver o aqui-agora’…

Regina – Esses dois corpos-nós que acabamos de fotografar e que estão aqui o mais possível neste presente, estão imersos no acontecimento. Acontecimento é o estado de coisas contemporâneo a essa interação intencional entre dois corpos que estão aqui co-corpando. Essa idéia de ‘aqui’ é uma ideia muito ecológica. Foi dentro da idéia de ecologias do Guattari que eu pesquei esse feeling de que se vive em ecologias… físicas e temporais… que são o acontecimento… com todas as suas camadas físicas, afetivas, cognitivas, antropológicas, de poderes, de valores, de tecnologia, de história, de memória… Através dessa idéia de ecologias, fica mais fácil para a gente compreender que os corpos ‘são’ parte, e não que ‘estão’ colocados… Os corpos são parte das ecologias. Aprendi com Stanley Keleman que a vida produz corpos para poder prosseguir nesses corpos, através desses corpos… Corpos têm uma duração, são elos de linhagens, são canais que filtram, absorvem, se ‘constroem com’ e se projetam no futuro, constituindo esses ambientes, num contínuo processo de devir. Então “aqui” é simplesmente um “lugar”, porque os corpos são apenas um “lugar” dentro da biosfera… um lugar vivo que faz todas essas operações de manutenção, continuação e produção da biosfera e de todos os ambientes de que é parte. Ponto. Comprendo o Aqui assim…

Nathalia – E o agora?

Regina – O agora é o que é simultâneo ao ato de estar presente. Ao ato. Porque aquilo que permite que a gente capte ou viva o agora é a identificação com as nossas ações, porque a presença é um ato, as ações são o presente. A presença não é uma ‘sacação’! (risos) A produção da presença é um ato. E os corpos são um agregado de ações. Os corpos não são uma mobília no espaço. São uma tessitura de ações – geneticamente programada, é óbvio, mas que não significa um ‘destino previsível’, porém tendências, mecanismos, dinâmicas herdados da espécie, do vivo… Sentir-se parte da anatomia evolutiva é muito importante para se ter essa qualidade de presença, saber que o ato de presença é anatômico. Os corpos são uma organização para um certo funcionamento nos ambientes. Essa organização é o que a gente chama de corpo.

Nathalia – E com base em que paradigma é que nós viemos com essa história de ‘aqui-agora’?

Regina – A filosofia é feita de tradições. Essa idéia do ‘aqui-agora’ a que você se referiu inicialmente é profundamente heideggeriana, existencial… Uma maneira de pensar do tempo em que o sujeito era visto ainda de um modo monolítico, um ‘sujeito’ identitário, pessoa… Mas é o que era possível se compreender com os paradigmas da ciência da época. A existência era muito baseada numa noção de indivíduo. Com as mudanças dos paradigmas de ciência, com a física quântica, as noções de ecologia e a descoberta da biologia molecular, a gente passa a ter uma evidência de que somos um ‘agregado molecular’ que permanece imantado durante certo tempo, que é a duração de um corpo em particular. Com essa noção de processo biológico podemos conceber os corpos como um agregado molecular que canaliza a vida, pois o que importa hoje para o olhar da ciência maior é a biosfera, essa camada viva tão complexa que envolve essa rocha chamada Terra, bem como seu destino.

 

O capitalismo e a produção dos corpos subjetivos

Nathalia – O começo da sua trajetória envolve uma militância política…

Regina – Não é bem uma militância… nunca fui militante.  Fui uma contracultural, uma jovem  tropicalista, participante ativa de uma luta pela transformação de modos de viver, de pensar, de comportar, de socializar… participei de toda essa mutação da subjetividade dos anos 60. Simultaneamente a essa luta, rolava uma outra luta, uma luta armada que enfrentava diretamente o golpe militar ocorrido no Brasil semelhante as outros que aconteceram nos diferentes países da América Latina  para que o capitalismo multinacional, hoje chamado capitalismo  global, pudesse se instalar.

Nathalia – Bem, então, reformulando a pergunta: como se expressava essa sua postura, ou essa rebeldia aos padrões naquela época e como ela foi se atualizando até o presente? Quer dizer, o que queria dizer ser ‘contracultural’ naquele momento e como é ser isso nos dias de hoje?

Regina – Pensando no que seria uma “militância” do corpo… Corpo, comportamento, atitude, modos de relação, de narrar a própria vida, toda essa mutação dos “modos” que aconteceram no final dos anos 60… O que era resistir naquele tempo e o que é resistir hoje? Que concepção de corpo é necessária para que se possa viver de uma maneira ‘resistente’ hoje? Naquele tempo a resistência era contra o endurecimento dos comportamentos. O endurecimento e a “caretização” que acontecem no pós-guerra americano, com a sociedade de consumo. Quando a sociedade de consumo se instala, violentamente, traz comportamentos modelizados, esterotipados, a família “ papai sabe tudo”…

Nathalia – Eletrodomésticos…

Regina – Eletrodomésticos… modelização de estilos de vida de uma maneira extremamente rígida produzindo corpos rígidos. Corpos rígidos, o que é igual a comportamentos morais rígidos. E isso se espalha, pela própria natureza da sociedade de consumo e do capitalismo que se instala no Estados Unidos no pós-guerra. Essa modelização dos corpos – que já vinha desde o final do séc. XIX como consequência das mudanças de vida trazidas pela Revolução Industrial – se amplia e se populariza de uma maneira enorme pela produção acelerada dos bens de consumo rápido e de obsolescência rápida, a propaganda que se desenvolve, o credito fácil, o cinema e tudo o mais.

Nathalia – E isso impulsionado pelos Estados Unidos…

Regina – Impulsionado pelos Estados Unidos que venceram a guerra e tiveram que pegar uma economia de guerra e aplicar numa sociedade de consumo… Aquilo que produzia armamento passa a produzir sabonete.

Nathalia – As mesmas máquinas…

Regina – Tudo as mesmas máquinas, o mesmo capital, tudo rapidamente direcionado para a indústria de consumo. Mas, no final dos anos 50, já começa uma mutação absoluta, um ‘descongelamento’ dessas formas de comportamento rigidificadas. Então aparecem as lutas de de jovens, de mulheres, de gays…Todas essas necessidades de liberdade e expressão começam a ganhar força. E com essas mutações de comportamento essa nova visão de um corpo que passa a ser expressivo pela dança, pela poesia, pelo rock, pelo cinema marginal, pelas atividades de grupos minoritários.

Nathalia – A ordem era ‘romper’.

Regina – Romper! Ninguém mais queria repetir o comportamento dos pais, da geração anterior. É curioso porque a gente vê o que acontece quando a contracultura começa a crescer. De um lado havia aquele terror do comunismo, a hegemonia do capitalismo exportando bens, comportamentos, valores… mas ao mesmo tempo, a contracultura girando no sentido contrário, de uma maneira planetária também. Desse modo, vemos toda a cartilha da tropicália ensinando como aproveitar toda essa abertura, fazer música com guitarra elétrica, absorvendo a influência  do rock, da literatura, do cinema… Nós nos perguntavmos como utilizar toda essa coisa internacional, mas de uma maneira inversa? As ditaduras se instalam, as multinacionais se expandem, tomam conta do planeta inteiro, multiplica-se a comunicação, multiplica a tecnologia, toda a circulação planetária de tudo o que diz respeito à esfera do conhecimento e da comunicação .E com essa enorme intensificação, o capitalismo passa a buscar o lucro de um outro modo. Não mais interessa produzir apenas consumidores de bens. O capitalismo agora se nutre da constituição mesma de estilos de vida. Na mesma mão que aterroriza as pessoas, através da mídia, com a ameaça de exclusão oferece contornos existenciais. Você sente todo o tempo que poderá ser excluído das redes de sentido e enlouquecer, excluído das redes econômicas e cair na miséria, excluído das redes da vida e morrer. E isso rege a sua vida. O capitalismo, através das mídias, mostra o tempo todo desgraça e na mesma mistura, oferece comportamentos que vão te incluir, criando continente para essa angústia gerada pela ameaça do esfacelamento dos corpos.O capitalismo passa a oferecer então essas fórmulas massivas de vida, bens e serviços que, na verdade, são elementos para a constituição das vidas. A aceleração do capitalismo é total e a gente hoje não existe sem nada em que não faça parte um signo qualquer que o inclua, que o mobilize e que segure sua angústia nessa deriva constante que a gente vive. Então, qual é a questão hoje? É os corpos perceberem que eles podem influir na própria modelização, serem agentes também da produção de si  e da diferença. Esse poder vem junto com esse paradigma da biologia molecular, junto com esse sentimento de ‘ser parte de tudo’ e de estar em processo contínuo de construção de si, dos ambientes, do planeta, da realidade, da história e de tudo. Isso gera um outro modo de lidar com a libertação dos corpos. O que importa hoje é produzir diferença, e não “liberar sua expressão e sua energia pessoais” mas produzir diferença, formas para conectar-se e manter agregação de si. A produção da diferença é uma coisa extremamente fina e artesanal, muito ao contrário do espalhafato expressivo dos anos 60. É o ‘menos é mais’, o minimalismo, o trabalho paciente e artesanal de estabelecer uma conversa entre corpo e cérebro na tessitura dos comportamentos funcionais e, portanto, das formas dos corpos e seus territórios.

Nathalia – Esse é o desafio.

Regina – Esse é o desafio. A autopoiese é um conceito fundamental da biologia contemporanea. É o processo de produção de si e a autopoiese está fundada na própria lei do vivo. Porque o vivo é autopoiético.

Nathalia – Então essas bandeiras coletivas, esses movimentos de grupos e os guetos… isso seria uma coisa ultrapassada?

Regina – Guetos sim…

Nathalia – Ou mesmo os movimentos gays hoje?

Regina – Mas o movimento gay já conseguiu tanta coisa! Acho que o movimento gay hoje é a luta pela diferença, não pelo ‘gay’ necessariamente.

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Nathalia – Não é por uma ‘identidade’ gay…

Regina – Não é por uma identidade. É por uma compreensão de que a sexualidade humana é múltipla. Essa é a luta! Não é o ‘gay que quer ser gay’… É a sexualidade humana que é múltipla! A luta pela singularidade, a composição única de cada corpo e cada vida.

Nathalia – E pelo reconhecimento, por uma legitimidade política.

Regina – O reconhecimento dessa multiplicidade é político! Isso tem que se instalar politicamente, a constatação dessa multiplicidade de sexualidades. Essa é a questão!

Ambientes confiáveis e tempos formativos

“Já nascemos em um mar de palavras” – (M.Bahktin)

Nathalia – Eu queria falar sobre uma questão que tem sido muito forte, que é a respeito dessa conversa entre o cérebro e o corpo, entre o meu corpo e o ambiente…

Regina – Entre ‘este’ corpo! Não ‘meu’ corpo… Essa mania de ‘meu corpo’… o que mais além do corpo? Quem é o proprietário?

Nathalia – Claro, este corpo! A gente ainda vive muito com base nisso… ‘Meu corpo’, como seu eu fosse alguém ou alguma alma que ‘tem’ este corpo…

Regina – como se fosse eu e o meu cachorro.

Nathalia – Mas isso ainda está muito na nossa linguagem comum, né?

Regina – Então… É aqui… ‘Aqui’ é uma bomba pulsátil. Esse é um belo conceito de Keleman que ampliei. Os corpos bombeiam o ambiente, processam os ambientes, se deslocam com esse bombeamento, assimilam ambientes produzindo mais camadas de si continuamente, sempre se valendo das camadas embriogenéticas: a usina profunda que produz nutrientes e condições para a continuidade, uma estrutura (óssea, muscular e tissular) forte e pesada que sustenta a forma e uma rede de informação que junta tudo e processando o vivido e  criando ‘mapas do vivido’.  O cérebro possui mapas inatos, claro, que são mapas da espécie que amadurecem com o desencadeamento da maturação daquele organismo em particular mas , ao mesmo tempo, na medida em que os comportamentos vão se diferenciando, se estabelecendo, esses comportamentos vão se selecionando pelo uso e vão se instalando como caminhos da informação, em interconexão com  caminhos pré-existentes. O corpo produz a sua mente dessa maneira. E esses mapas vão conversando com a continuidade da produção de corpo, porque, é claro, os corpos não param de secretar corpo continuamente… o corpo não é um dado mas um processo… Essa conversa entre os mapas é o que se pode chamar de ‘consciência’, o que se pode chamar de ‘pensamento’.

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Nathalia – Bom, partindo dessa frase que está aqui no seu postal: “Os corpos estão sempre apoiados em interações somáticas, buscando ambientes confiáveis e tempos formativos para que possam maturar seus modos vinculares, sustentando conexão e agregação de si”. Eu queria que você diferenciasse essa busca por ‘ambientes confiáveis’ de algo como uma busca por um certo ‘bem estar’, que ainda há também muita confusão a esse respeito.

Regina – A vida necessita de condições para se desenvolver. O organismo tem um timing que é fundamental para que se produzam tecidos, redes neurais e que o funcionamento do sujeito possa ir sustentando sucessivas adaptações ao longo da vida… Os corpos necessitam desse tempo para realizar sua estabilização com os tecidos que se produzem e se organizam. É o tempo formativo. E mesmo em condições muito adversas, o organismo pode ter ambientes confiáveis que são os vínculos ou conexões entre os corpos. Os corpos aprendem confiança praticando a partir dos vínculos externos para depois vivê-la como uma confiança do organismo nos próprios processos, mantendo coesão interna. Você vê essa velocidade que o planeta tomou… As pessoas acordam atendendo o celular. A pessoa acorda, vai pro banheiro, liga celular e abre o computador. As pessoas são compelidas a fazer duzentas mil coisas ao mesmo tempo compelidas pela sensação de que vão perder o bonde e vão ser excluídas das redes, como já falamos. Eu vivi uma experiência disso recentemente no aeroporto, em Buenos Aires: uma centena de pessoas falando todas ao mesmo tempo no celular, cada um com o seu aparelhinho na fila de embarque… Foi uma cena espetacular! Aquelas pessoas estavam em todos os lugares ao mesmo tempo…mil conversas, mil vozes, mil assuntos, fechando compromissos, discutindo projetos, trocando ideias, combinando encontros…incrivel!… e aqueles corpos meio zumbis na fila…

Nathalia – E que corpo é esse, Regina?

Regina – É uma maximização da potência neural. Vivemos esse tempo. O sistema nervoso é capaz de operações extraordinárias. Quanto mais treinado, mais ele faz.

Nathalia – As pessoas têm sofrido muito de insônia, porque não conseguem ‘desligar’.

Regina –Não conseguem desligar. Por que? Não compreendem que o sistema nervoso e os músculos trabalham juntos. Porque os músculos é que regulam o tempo e espacializam os corpos. Então, a única possibilidade de você aprender é se você permitir essa conversa entre músculos e nervos. Os tecidos necessitam de um tempo para se constituir. Existe uma crença veiculada pelo mercado da informação que todo mundo tem que  falar, todo mundo tem que publicar, todo mundo tem que dizer e influir sobre o pensamento do outro… E todo mundo acha que vai ser ouvido! Você olha na internet e vê todo esse bombardeio de vozes. Acredita-se de fato que alguém vai ler e ouvir tudo aquilo e mudar sua vida, seus hábitos, suas posições nos jogos de força no mundo. Para que a mudança aconteça, é necessário que comportamentos se implantem. E para que isso aconteça é necessário que a gente ande no timing da produção de tecido. É preciso um tempo para que se possa produzir organização dos comportamentos… para as moléculas se agregarem, as camadas se fazerem, a conectividade de partes se estabelecerem. Para que o comportamento realmente mude – e a gente não viva na pura idealização– tem que ter esse senso de realidade de que o que se capta precisa se transformar em tecido, para que possa se estabilizar por um tempo como parte sua… Isso vale também para o desmanchamento de comportamentos que não mais viabilizam nossas conexões com os acontecimentos. Porque tudo isso é feito de experimentações em cima do tempo biológico, tudo depende das regras biológicas… Há que aprender operar a vida para ser parte da vida.

Nathalia – Então, mas dentro dessa dinâmica veloz de como as coisas estão acontecendo, como é que você opera com isso respeitando o tempo biológico?

Regina – É um conhecimento necessário. Não só um conhecimento filosófico mas um conhecimento de como se produzem e mudam os comportamentos. A ética é feita de comportamentos. Do mesmo modo em que a gente aprende a ler coisas mais complexas, que aprende a entender cinema, aprende isso, aprende aquilo, tem que aprender comportamentos. Aprender como se faz comportamento eticamente estruturado! Porque a ética é a vida!

Nathalia – Aprender a linguagem deste corpo em processo?

Regina – A linguagem da produção de corpo.

Nathalia – Uma atenção sobre si…

Regina – É uma atenção sobre si, sobre os processos. Ir se expressando, aqui e ali, aprendendo a dar corpo ao que se vive… É um jogo. E as redes vão se formando entre as pessoas que acreditam e funcionam assim. São as ressonâncias, a produção de redes, as colaborações. A idéia de colaborar é fundamental. Colaboração não é uma regra moral, é um efeito da maturação dos corpos subjetivos. Porque quem não amadurece quer dominar, quer ser reconhecido, quer ser aplaudido, quer explorar, quer depender. Tudo isso são aspectos vinculares imaturos, formas somaticamente estruturadas de funcionar, comportamentos. Então, o amadurecimento vincular é muito importante em projetos de educação: educação para a colaboração, educação dos corpos , das formas de ligação. Guattari lançou a bela proposta chamada Caosmose, em seu tempo.

Nathalia – E, para você, sustentabilidade tem a ver com isso?

Regina –Sustentabilidade é cultivar os ambientes confiáveis e os tempos formativos para que os processos se encarnem. Isso é contribuir para a produção de real, de corpos e ambientes se efetivando. Efetivar-se quer dizer: produzir tecidos, produzir vínculos, produzir territórios e durar, enquanto for funcional. Aquilo que determina a durabilidade de uma coisa é sua funcionalidade.

Nathalia – Então tem a ver com criar condições favoráveis para que os corpos possam se efetivar? Isso seria pensar sustentabilidade?

Regina – Sim, sim! Ambiente confiável e tempo formativo para a produção da diferença. Porque não trabalhar pela produção da diferença significa um enorme empobrecimento.

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Nathalia – Como é que começa a surgir o sujeito, em nós, que é reativo, que quer se proteger, quer se assegurar, quer garantias, etc?

Regina – O homem é um animal bípede, sem pêlo, fraco mas inteligente porque tem um cérebro frontal que permite que ele veja o que vem lá na frente e compreenda o que vai acontecer depois. Ele consegue prever. O cérebro frontal é um salto! O equilíbrio do corpo ereto é algo altamente instável. A experiência da instabilidade, da desproteção e do risco é completamente inerente à condição de postura ereta humana. Mas, ao mesmo tempo, tem esse enorme desenvolvimento encefálico que a nossa espécie teve e que permite olhar lá na frente, observar e organizar-se antecipadamente para o que vem!

Nathalia – E é assim surge a linguagem? Com esse neo-córtex?

Regina – A linguagem é uma conversa complicada. O que nos interessa não são as ‘origens’ das coisas, mas saber que a gente já nasce num ‘mar’. Eu trabalho muito com essa idéia de que a gente já nasce num mar de comportamentos, de palavras, de valores etc. Mas a gente pode criar uma ‘diferença’ nesses mares, um “ próprio” com elementos desses mares. Isso é potencia formativa. Mas corremos o risco de colar no que já se encontra pronto no ambiente. Já falamos disso há pouco.

A bricolagem formativa.

Nathalia – Então, para você, a noção de força estaria ligada a essa capacidade…

Regina – De captar, absorver, assimilar…

Nathalia – Produzir comportamentos, tecidos, paredes…

Regina – Produzir comportamento, paredes corporais, formas de si…Produzir mapas neurais, expressões e vínculos muscularmente estruturados

Nathalia – E esse desafio de relacionar essas intensidades e esses fluxos viscerais, instintivos…

Regina – Então… Tecer um sujeito uma tarefa, é tecido!

Nathalia – É mesmo! E viver intensivamente esses processos…

Regina – Mas tecendo! Tecendo! Não adianta só ser atravessado pelos acontecimentos, ser sensível  , isso só não interessa!

Nathalia – Tem que criar formas, né?

Regina – Tecer formas, estabilizar as formas de fazer as ações… Não, não basta ser prudente. Tem que saber finamente como fazer. ‘Como’! Tudo são ‘modos’ e ‘comos’ e não é estável. São modos e comos… metaestáveis…

Nathalia – Então a pessoa que cai na angústia, no vazio da crise existencial de não saber o que quer, não está sabendo como se efetivar, como lidar com essas múltiplas intensidades que o atravessam…

Regina – Então, são necessarias múltiplas educações. Eu acho que a educação para a subjetivação é muito importante, a educação para a produção de corpo, a educação crítica, vincular, colaborativa, com a ajuda clinica quando necessário.

Nathalia – Compor zonas temporárias…

Regina – Temporárias… Porque a gente vive numa realidade em processo. A gente tem que cultivar a habilidade de entrar, sair, aprender, praticar.

Nathalia – E esse é o mar onde a gente nasce.

Regina – Esse é o mar onde a gente nasce… Tem que desenvolver crítica!E recorrer à clinica…

Nathalia – E, pra finalizar, aproveitando que estamos falando desse mar…Queria trazer a história da ‘bricolagem’, que seria justamente como a gente se move nesse mar, né?

Regina – A bricolagem são essas composições de fragmentos. A gente tem que aprender como fragmentar comportamentos e como remontar.

Nathalia – E essa remontagem seria esse campo, esse ‘aqui’ que a gente vai construindo…

Regina – Vai construindo um ‘aqui’ funcional… Aquilo que diferencia é o ‘funcional’!

Nathalia – Ou seja, nunca é o que ‘é’…

Regina – Não, não é o que ‘é’! O modo do mercado gerar lucro é oferecer sem parar modelos de funcionalidade.  Se dar bem, sucesso, ser rico, ser bonito, eternizar a segurança, ter a juventude eterna. Isso é uma captura da funcionalidade. Funcionalidade é funcionar! Funcionar na vida, nos campos corpantes. Essa ideia de ‘campo corpante’ é muito bela, saber que a gente está imerso nos ambientes produzindo corpo junto: ‘bodying field’. Essa idéia é maravilhosa. O Keleman usou por alguns anos esse conceito e depois largou, justamente por não ter a dimensão política para sustentá-lo.  Eu peguei a ideia e reciclei.

Nathalia – E aí você pegou esse conceito e aprofundou.

Regina – Eu peguei e fui adiante! A idéia de bomba pulsátil, campo corpante, co-corpar…

Nathalia – Quer dizer, o que você fez com este e outros autores foi a sua bricolagem?

Regina – Totalmente bricolagem! Na confiança, acreditando, fazendo, indo em frente…

Nathalia – Então, que coisa louca essa, não é Regina? Você teve acesso a isso, mas outras pessoas também poderiam ou tiveram… O que é isso que se diferencia em você, que lhe dá essa propensão para não se acomodar num lugar?

Regina – Ah, é um conjunto… Eu acho que eu sou uma pessoa de sorte.

(risos)

Nathalia – E de coragem, né…

Regina – Coragem, sorte… Uma inteligência considerável. É uma coisa engraçada, a minha família é de gente muito inteligente.

Nathalia – Então talvez seja seu mapa genético?

Regina – Não sei… Ou uma maneira de funcionar. Uma certa classe média com uma capacidade de risco e crítica. Engraçado isso…

Nathalia – E esse foi o ambiente que você nasceu…

Regina – Foi o ambiente onde eu nasci. Muito instável mas com uma beleza, uma beleza… Uma coisa meio poética. Minha família tinha uma coisa assim… Um sentimento meio poético em relação à existência e à instabilidade. E tinha o lance de muita inteligência, de eles conseguirem tirar dos próprios recursos – que não eram muitos, eram bem normais – coisas muito bonitas.

Nathalia – Que bonito isso.

Regina – É… Minha mãe morreu com 95 anos tocando piano e lendo jornal. Meu pai era um bom médico, um ótimo fotógrafo, fazia teatro. Então é uma sorte… Um conjunto de forças e muita rebeldia! Rebeldia, confronto, briga, mudar de mundo muitas vezes… Um senso de sobrevivência muito alto, de pular fora quando a coisa ficava muito sufocante e isso aconteceu muitas vezes. Uma boa dose de impulsividade, uma força física bem cultivada… Amigos de muitos lugares, muitos mundos…Abril2013 217

Nathalia – Muitos ambientes.

Regina – Muitos ambientes, misturando muitos ambientes.

Nathalia – São muitos elementos que a gente é capaz de apreender, de captar…

Regina – E de manter imantados, numa agregação de fragmentos! Eu sou uma pessoa de fragmentos! Mudei muito de escola… Tudo aquilo que sempre me fez ser um pouco ‘outsider’, sabe? Nunca me vi ‘sentadona’  na cadeira…

Nathalia – Mas você não tinha uma angústia em relação a isso?

Regina – Tinha,  claro que tinha! Mas bem aguentada…

Nathalia – Mas uma angústia em relação à sua família?

Regina – Tinha! Em relação a tudo!! Eu sou uma pessoa de maturação tardia… Eu tenho 71 anos! Custei a amadurecer…

(risos)

Nathalia – Que alívio ouvir isso!!!

Regina – Eu custei muito a amadurecer, a me estabilizar…

Nathalia – Por isso é que você foi fazer o que você faz, não é? Você tinha que se haver com isso!

Regina – Sim! Um corpo-a-corpo constante com a vida…

Nathalia – Nossa, eu me identifico profundamente com isso.

Regina – Mas essa é a verdade! O resto é propaganda enganosa, que bota as pessoas sentadas nas cadeiras, nos lugares… Eu não sou essa pessoa, nunca consegui sentar sossegada.

Nathalia – É uma coisa inacreditável, mas quando a gente faz essa ação sobre si, realiza essa transformação, quanta coisa muda junto! Então, a gente tem tanto medo de fazer isso porque, no fundo, a gente sabe que isso envolve uma modificação de todos os corpos ao redor também, não é?

Regina – Com certeza… Estabelece um  outro jogo de forças.