Intro

Bloguear…por quê?

Há uma palavra muito usada pela Regina Favre da qual gosto bastante, que é ‘imantar’. Quer dizer trazer junto, agregar… Imantar é manter diversos fragmentos próximos, por um  intervalo de tempo. Sou um agregado de moléculas, de ações, de palavras. Sou uma trama, um ser tecido. Sou tecidos… Músculos, pele, imagens, nexos, sentidos, contornos. Aqui……Eu. Não um eu fechado, fixo, pronto: mas um eu imantado. Um lugar flexível e dinâmico, mas que vive sim seus momentos de estabilidade. Vive repousos na forma. É bom poder repousar na forma! E é bom saber que se está repousando, ter consciência disso. É necessário constituir zonas, ainda que temporárias… Desenhar territórios, para depois poder também desterritorializar.

Então para que se começa um blog, se não há o intuito ou a expectativa de que alguém vá ler… Ou, ao menos, se esse não é o impulso inicial? É que, sem que eu soubesse de início, o Sonora Letra tornou-se um espaço onde pratico essa imantação de mim. Uma realização virtual desses atos que produzem discursos, criam palavras-chaves (ou ‘tags’), reordenam ideias, estabelecem rotas de navegação, orientam fluxos e buscam dar a todo esse mapa um layout adequado. Trata-se de um exercício de criar designs, no fora e no dentro. Um automodelamento pela produção e pela organização da comunicação. Diferente de se ter um site criado e mantido por um webmaster, gerenciar um blog pessoal é praticar essa atualização da própria presença de maneira dinâmica e constante, pela construção das narrativas de si. E podendo fazer isso a qualquer momento e com as próprias mãos.

Há alguns dias, acessei o blog e desgostei do layout. Faziam poucos meses que havia estabelecido aquela estrutura, daquela forma. Mas, nesse meio tempo, muitas coisas aconteceram – nele, em mim. O lance das entrevistas surgiu como um poderoso dispositivo disparador de poéticas e de modos de vinculação completamente novos e potentes. Revelou-se como um elemento não apenas informativo, mas sobretudo per/formativo. Porque essa liberdade de poder ir em busca das pessoas e fazer suas próprias perguntas traz à tona uma questão: ‘Quais são as minhas perguntas?’. Por que razão algo em mim deseja buscar aquela fonte? Quem é esse ‘quem’ que pergunta?

Então percebi que sou, antes de tudo, uma história… Ou uma estória. Não sou o fato, mas as versões. E estou em busca das falas que me alimentam e ajudam a compor estruturas. Busco no outro os fios com que desejo me tecer como imagem, como mapa, como corpo-linguagem. E dias atrás, ao ver meu blog no formato em que estava, tive a nítida sensação de estar me desmanchando… Me desfigurando. Senti meus tecidos esgarçarem-se, contornos ficando rarefeitos. Vi que era hora de mexer novamente, achar o layout, reestruturar as páginas, incluindo as novidades que estão acontecendo. Perceber aquilo que se está fazendo enquanto se faz é um ganho.

Narrar os eventos para si é um modo de imantação. Precisamos nos contar sobre nós mesmos, repassar eventos, reviver os acontecimentos sob outras perspectivas, embaralhar os fatos, reordenar a sequencia dos atos, fazer recortes, colagens etc. Bloguear, para mim, é isso. E meu destino aqui é lembrar-me (lembrar-nos) de que nossas histórias precisam ser constantemente narradas para nós mesmos.

Como explica Regina, o capitalismo global nos inunda de imagens, medos, impressões, modos de comportamento, maneiras de agir e de se relacionar com o mundo e consigo, ao mesmo tempo em que nos ameaça com a desagregação, a perda do sentido e a exclusão sob vários aspectos. Bloguear como mecanismo de auto-agregação, de produção de diferença e efetivação de si, baseado na ideia de que somos múltiplos, somos instáveis, frágeis e efêmeros, mas podemos alinhavar palavras e células e produzir poética em nossos próprios corpos.

A tarefa é árdua: imantar é preciso!

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4 comentários em “Intro

    maria disse:
    16 de junho de 2013 às 18:59

    lindo natália, lindo lindo.
    alinhavar e construir poéticas…perceber aquilo que se está fazendo enqto se faz é um ganho que se chama consciência.
    aí não tem retorno, é o próprio mistério se auto observando.
    minhas reverências!
    abs
    maria

      Nathalia Leter respondido:
      23 de julho de 2013 às 02:39

      muito obrigada Maria… obrigada pela visita e por compartilhar do seu olhar, do meu olhar. Apareça sempre, por favor…um forte abraço

    Leila disse:
    25 de setembro de 2013 às 02:04

    Adorei! Fiquei até com vontade de bloguear tb. Escrever, escrever, escrever, exercícios de experimentação de si. Respiro!

      Nathalia Leter respondido:
      25 de setembro de 2013 às 02:06

      que bom Leila!!! recomendo super… e posso te dar o caminho das pedras no wordpress! bjs

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