Grande Sertão: Travessia

Postado em Atualizado em

São Paulo, fevereiro de 2008

Carta a uma amiga atriz:

“Acabo de completar a leitura de Grande Sertão: Veredas. No fundo de tudo que estou sentindo agora e que nem sei se é coisa que chega a tomar corpo de sentido ou sentimento, resta-me essa insólita perturbação. Parece… Apenas “parece”, que conheci um lugar. Não posso descrevê-lo, porque nem sei se o que vi, vi. Se vivi ou sobrevi. Como quem pesca no ar um fragmento de coisa viva e fugaz, rapidamente cerrando o punho sem ter podido ver se o que pegou foi pego. Ao que, se abrindo as mãos, as coisas escapam aos dedos das palavras. Ideia é como um vagalume que é luz e nada ao mesmo tempo: se esconde sem sair do lugar. Pois bem. Começar este livro foi mergulhar num abismo de túnel sem chão nem princípio. Início da travessia.
Então, numa manhã vadia de janeiro, no afã de rasgar viagem comprida por querer cumprir, no real, a viagem apenas devaneada, fomos que arrancamos de carro até o norte de Minas Gerais. Queríamos o Sertão! Eu queria e não queria. Soubesse? “O que antes não sabia, hoje não entendo”, me dizia Riobaldo. Rumamos. Mais atrás, deixávamos nossas vidas em busca da alma viva do Sertão. O Sertão tem alma? Tem vida? O nó desgosto de mais ir e ir sem conhecer destino prévio. Íamos ficando cada vez mais distantes da origem, buscando a origem das coisas. Crescia de um lado nosso alívio, por estranho e desarrazoado esquema que calculava esperanças de chegar. Mas aonde? Conforme, então, esticávamos o fio da jornada num esforço desventuroso de não poder voltar e tampouco estar certo de prosseguir.
Em Belo Horizonte, pernoitamos em mal humores e solidões. Desistimos? Continuamos. E quanto mais ganhávamos lonjura, mais longas e desoladas ficavam as horas. O tempo ía assim se tresmudando mudo em extensas rodovias. Veredas imensas desse País sem fundo. Estradas ruins de crateras e caminhões. Sete Lagoas, passamos. Chuva miúda e contínua caindo de um céu pesado e cinza que situava os limites de nosso poder respirar. E, de repente, como que sem saber disso, já nos achávamos dentro de uma guerra surda e sem juízo. Debatíamo-nos nos internos do corpo num silêncio denso, a banhar de ocre as paisagens. Ou teria sido o inverso? E o que figurava ser o nosso esboço de resistência e coragem – sustentar um sorrir murcho, bobo e seco – nascia ali mesmo, da luta. Contra quem?
Então sentimos o aproximar de outra sorte de lugar: era o cerrado, principiando-se amarelo. Muitos caminhões de carvão. Nada nos salvava. Qualquer sede que se tivesse, vontade de café ou de bala, já constituía algum objetivo e garantia uma breve saciedade de nexo. Qualquer coisa nos salvava. Aonde quer que pousasse a vista naquelas paragens, caçava a sombra silhueta de dois sertanejos montados em seus cavalos, indo ou vindo. Jagunços em situação: Riobaldo e Diadorim. Eu queria, acreditava. Minha alegria aumentava à expectativa e firme crença num repentino encontro que se daria. Eu buscava era um algo que se encorpava mais e mais a cada quilômetro passado e que, a qualquer momento, se revelaria perfeitamente tocável e substancial. O qual ainda não vinha. Viria?
Passamos Cordisburgo, onde nasceu o autor da saga. Abriga um museu em sua homenagem e também o roteiro “Guimarães Rosa”. Já era o começo do Sertão. E como se tudo ali tivesse pulado pra fora do livro, meu imaginar vagueava entre realidades a um só tempo críveis e fantásticas, no anseio de atingir o coração do enredo! Como se ao dobrar da curva na estrada, justo logo adiante, eu pudesse deparar-me ante a material figura dos meus personagens! Nossa meta, nesse segundo dia, era chegar a Montes Claros para amanhecer e rumar mais duas horas até Januária: nosso destino final por projeto ou desvario. O que queríamos lá?
Eu já estava lá pelas 400 páginas do livro percorridas. Pela janela avistávamos Corinto, Lassance e, com mais um pouco, alcançamos Montes Claros. Cidade feia. Tanto viajamos para dar naquilo. Tudo se desmoronava. A maré de nosso frágil ânimo recuou mais uma vez, deixando uma ressaca de estrada e a gastura que nos acabou em desilusão. Sentimento de perder antes mesmo de ter encontrado. Que era que pretendíamos naquele fim de mundo? Ali era o nada. Não era cidade de verdade, nem bem um interior bucólico, nem coisa alguma. Dessas típicas cidades brasileiras que são apenas aquilo no que deram e que vão se empurrando pra frente como podem. Ficássemos em São Paulo, sertão que já conheço e onde as coisas funcionam 24 horas. Mas ali?!
Era só desânimo… Estávamos para o súbito deserto. Ao redor de nós, o Sertão. E dentro de nós. “O Sertão é quando menos se espera”. Sem cheiro de origens, sem entradas, nem saídas. Era como se a nós estivessem camuflados os portões de acesso ao interno de um lugar. Estávamos no não-lugar. A música ruim do rádio, a cultura toscamente copiada das capitais, suplantada na forma de um comércio rasteiro e insuficiente para fazer entornar um caldo grosso de cidade grande. Era o nem isso nem aquilo onde estávamos. Foi então que viemos a desconfiar que aquilo já era o Sertão, em seca e Estado. “O Sertão é sem lugar”, avisava Riobaldo.
Nos conformamos, vencidas. Daí adiante, foram só as desfeitas e as despedidas. Não chegamos e já partíamos. Mais não subimos. Não fomos à formosa Januária, com suas praias do São Francisco. Nos demos conta de que nosso destino era, na verdade, o rumar movimento por si, sem chegadas. Assim feito os astros cruzando o céu em seu roteiro diário, ao que, em parar, caíamos no buraco do nada. O Sertão é a estrada? Nosso chão era o trilhado e nosso estar era correndo. Estrada, estrada, estrada. Será que isso que não vivemos foi, em ausência tocável, o amor jamais consumido entre Diadorim e Riobaldo? Esse amor que não brotou e só à morte fez-se flor teria sido dessa nossa desventura o oculto mote? Miséria deles, miséria nossa. Sertão de muitos espelhos, muitos nomes. Medos que tínhamos e energias com que os enfrentávamos e que daquela terra mesma se produziam e afloravam. Medo do exílio, da insensatez, da loucura e da morte.
Queríamos e não queríamos mais dirigir. Quanto mais andávamos por sobre aqueles campos de abandono, mais adentrávamos “no vazio do vago”. Tudo era um sim e um não justapostos e encruzilhadas. Podíamos tudo tanto quanto nada. O absurdo daquela viagem sem fim de descanso nem de finalidade. A gasolina sendo gasta para o sem razão alguma. Travessia. Viemos descendo por Pirapora, aonde o velho Chico corria afoito e breve como nós. Praias não havia. Nem um naco de silêncio. Só pagode, axé music e coisa assim… A desalma! Não encontrei Diadorim. Foi como ir de surpresa à porta de um amigo e lá chegar dando com a casa vazia, o dono estando noutro lugar.
Fizemos Três Marias e o resto do percurso, que na vinda nos levou três dias, agora tudo de uma vez. Ver o sol ali nascer novamente era já uma tal exaustão psíquica que preferimos sucumbir ao volante num dia inteiro de retorno. Afinal, também o corpo se recusava a descansar longe do cheiro de casa. E foi assim que, sem dizer adeus, nem olhar pelo retrovisor, fugimos aquele Sertão que nos engoliu antes que nele puséssemos olhos. Do mesmo jeito que nos devorou e quase enlouqueceu, para fora de si nos cuspiu. Nossa visão era à frente, para o ir-se embora, como afugentadas de onça braba. E foi somente o chegar em casa – com olhos, pés, nariz e mão – que, no cerrar da porta, deixamos em definitivo o Sertão.
Mal agora terminei o livro. Refeita do vão de uma tristeza sem beira, escrevo-lhe dando medidas ao que é mensurável e possível. O que não é, não digo porque não é para ser, tal como o Sertão que existe sem se ver – esses mundos que se soerguem pelos abismos e veredas do Silêncio. Coisas não identificáveis. E eis que, de novo, ele vem: o Sertão, enfunando o coração da gente. “O Sertão é assim: o Senhor empurra ele pra trás e ele volta a rodear o Senhor pelos lados”. Ah, Riobaldo, mano velho! Segredo difícil o seu, de carregar na barriga o umbigo da poesia… Travessia. De tudo isso que não me cabe em natureza de pensamento, nessas lamas sertanejas da mente, apenas uma música de Egberto Gismonti ecoa fraca e tremeluzente feito aquela ideia-vagalume. Como álbum de uma faixa só, fica ela se repetindo qual caroço de desentendimento que restou como resíduo a flutuar em minha cabeça:
Pau rolou, caiu
Pau rolou, caiu
Foi na mata, ninguém viu
Pau rolou, rolou…”
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