Oroboro

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Subitamente vi.

Vi meu rabo, de rabo de olho. Inalcançável…

Estendendo-se pelo infinito animal do meu profundo ser primitivo.

Vi minha longa calda deitada na escada evolutiva, sua ponta ultrapassando meus ancestrais primatas.

Vi a mim mesmo como um prisma multicolorido. Atado ao passado pelas nádegas, num rudimentar rabo de pavão.

E sobre o rabo sentei-me, constrangido.

‘Espírito encarnado em quatro patas’, é o que sou.

De imensas asas contraídas. Vôo pequeno, baixo e tímido na enormidade áerea.

Esculpi uma vida de cheia de sentidos com apenas cinco sentidos… E um rabo, que entrevejo pelo canto da retina.

Outro dia, vi um meu antepassado: um nabo, caído na esquina da feira.

Estava exatamente na rabeira da metamorfose vegetal que culminou anos depois em cérebro, identidade e coluna vertebral.

Culminou em mim: bípede, sublime e paradoxal.

Fingi não ver que entre o nabo e o espaço que havia entre mim e o nabo, havia o meu rabo. Minha metade sapo, a se esgueirar na estrada.

Incômodo e indiscreto rabo, sob o pino sol do Ser que ainda hei de conhecer.

Ser que um dia hei de me tornar.

Ser que ali está, bem na ponta da calda larga, a pairar por sobre os ventos que hão de me passar.

Um dia deixarei tudo para trás, pelo rabo. E, ao fim e ao cabo, nada mais levarei de mim.

Verei então o rabo despregar-se de vez e quedar-se também pelo caminho. Serei nada menos que um grão de areia.

Nada mesmo, nada.

O nado de um peixe regresso ao mar abissal. À fonte primeva.

Uma outra Eva. Inicial.

Serei nada, nado, peixe, areia. Verei, então, de rabo de olho, o meu grande rabo de sereia.

Sentado na vasta calda de um cometa como um girino cósmico, a flutuar fulminante pelo espaço sideral!

E serei absoluto, uterino…

O grilo angelical.

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2 comentários em “Oroboro

    Luciana Francis (nee Saldanha) disse:
    24 de julho de 2013 às 21:44

    Hoje mesmo terminei de ler o livro Agua Viva de Clarice Lispector. Esse brado existencial por voce escrito, liricamente descrito como um chefe japones cortando delicadamente a propria delicadeza da carne de um peixe,, me fez pensar na Clarice e na busca transcendental (prem nao religiosa) da escrita dela. Inspiradissimo e Precioso.

      Nathalia Leter respondido:
      24 de julho de 2013 às 22:51

      Nossa…o que dizer, hein Luciana? Eu simplesmente venero a Clarice. Li Água Viva há alguns anos e pude entender tantas coisas a partir dessa e de outras obras dela…tudo fez sentido! Essa mulher revirou minha cabeça, materializou em palavra mundos até então desconhecidos para mim (em mim) e operou definitivamente um novo modo de escrita na minha vida. Sem dúvida há sim nesse e em vários outros textos meus a presença desse universo de linguagem aberto pela Clarice…me alegra que sua percepção tenha sido essa. Obrigada por compartilhar…Um abraço, N.

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