Entre os tempos

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Em resposta à Thais: a de hoje, a de ontem…e às possíveis e várias.

Segunda-feira, 15 de abril. O despertador toca às 8 da manhã. Abro os olhos e, por alguns instantes, sobrevoo meu dia. Os compromissos, a agenda, durações, ações e territórios. E logo, tudo se encaminha para fazer o Sol andar. Mas eis que, então, um acontecimento vem e me atravessa. Uma carta da minha irmã, publicada num blog da Folha me arremessa noutra direção. Num relato pleno da poesia mais singela e delicada, ela fala de nós. Fala da nossa infância. Ponto final no meu dia? Uma fenda se abre nesse mecanismo ordinário com que construo essa minha rotina adulta de fazeres e percursos planejados. Sim, ponto final. Um rasgo no tempo e, num jorro de memórias e imagens, estou novamente instalada naquele instante em que eu era “A irmã mais velha”. O que significava isso? Queria dizer que eu era a Heroína, o modelo, a referência. Volto para este tempo em que eu era quase nada além de apenas ser a irmã dois anos mais velha que a Thais. Tudo o que eu era resumia-se a ser irmã. E oh, que missão! Minha tarefa era imensa e consistia em ser, para ela, um Mundo e um tempo inteiramente preenchido de sentido…Preenchido da minha presença. Por que era assim? Ninguém nunca me disse que era para ser assim, então por que era? Jamais saberei responder. Mas, talvez no momento em que eu botei meus olhinhos naqueles outros olhinhos ainda mais frágeis que os meus, suponho ter calculado que, se os adultos eram incapazes de me compreender, tampouco a compreenderiam. Então, para isso eu estava lá! Eu tinha condições de entender suas necessidades, de estar mais perto dela e de fazê-la sentir meu calor. E tudo isso por um simples motivo: eu também era criança, como ela. Fazia parte do mundo dela…Tinha somente um pouquinho mais de palavras na língua. O suficiente apenas para ir jogando-as atrás de mim, enquanto eu mesma ía tentando achar minha trajetória, como quem cuida de deixar uma trilha de miolinhos de pão com que conduzir o outro que vem logo atrás. Ou para que ela simplesmente tivesse a certeza de saber que eu sempre estaria lá, apenas alguns passos adiante. Eu sempre estaria observando, mesmo um pouco longe. Acompanharia seus movimentos, suas tentativas de se equilibrar sobre as pernas, de descobrir seu próprio ritmo. Eu, que nem mesmo sabia ainda caminhar bem com as minhas próprias e que, a todo momento, tropeçava e caía, cuidando entretanto de não permitir que ela me visse no chão, despencada. Tão exigente eu era com nós duas. Queria ser o melhor para ela e, ao mesmo tempo, que ela me superasse, que voasse céus acima de céus! E assim fomos indo, crescendo. Afastadas uma da outra por tantas contingências, tantos processos. Os anos vão passando e, de repente, aquela diferença de idade (tão enorme, quando éramos pequenas) vai diminuindo, diminuindo…Desapareceu. Tenho 30 anos e ela 28. Não há mais diferença alguma. É como se agora fôssemos gêmeas, nascêssemos juntas. Tornamo-nos adultas. Nos vemos pouco. Cada uma construindo sua própria trilha, jogando para si mesma os miolos de pão que indicam o próximo passo e tomando de sua própria mão para arriscar um novo movimento. Creio que fomos aprendendo a nos encorajar a nós mesmas diante de cada novo desafio e a tatear as direções, encontrar por nós mesmas todas as medidas. Fomos aprendendo a preencher nosso tempo com a nossa própria presença. Acima de tudo, aprendemos a falar como os adultos: ‘através de’. Através de uma fotografia por email, de um torpedo no celular, um ‘curtir’ no facebook ou uma publicação num blog sinalizamos levemente uma para a outra que, malgrado as distâncias, ainda estamos juntas. Mas hoje, lendo essa carta, descubro que algo em mim ainda se sente como aquela criança ‘cheia de responsabilidades’ sobre a irmã caçula. Ainda finjo para ela que não tenho problemas, escondo as dúvidas, demonstro força e coragem sem limites, ensaio dar um conselho, abafo sentimentos de vulnerabilidade. Percebo que, no fundo, temo não ser mais sua heroína. E no entanto, parece que a coisa se inverteu. Há alguns dias lhe pedi uma dica de viagem… Faz tanto tempo que não faço uma viagem, enquanto ela tem viajado muito sozinha. Está tão desinibida e desenvolta. Há muito tempo não é mais aquela garotinha de franjão escondendo os olhos e a face muito tímida pendida para o chão. E, acima de tudo, ela é tão leve…Como aprender a ser assim leve, também? Mas ela me ajuda, me liberta. Hoje fez isso, de certa maneira…”Amo você pelo que você é. Não preciso mais da super-mulher!” – foi o que ela não disse, mas disse. Pois assim funcionam as coisas no país das maravilhas: Alice cresce, Alice diminui e o mais velho torna-se o mais novo. Hoje me senti a mais nova, inexperiente, desarticulada. E que alívio ter uma irmã mais velha olhando por mim também. Então, do fundo da minha alma (sempre infantil), quero lhe agradecer Thais…Por me ensinar que, de fato, tudo pode ser muito mais simples e mais gostoso. Te amo do tamanho de dez elefantes!

Para ler a carta da Thais: http://entretempos.blogfolha.uol.com.br/2013/04/15/de-dentro-18/

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