I de IMANÊNCIA

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I de IMANÊNCIA

Fuganti – Então a imanência, inicialmente, se torna mais clara na medida em que a gente a vê pelo seu contraste, que é a transcendência. O que é a transcendência? É a crença de que o verdadeiramente real está num outro plano que não esse da natureza e da existência do Homem. Estaria num plano divino ou supraceleste, como acreditava Platão. Ou seja, que o mundo verdadeiramente real não está no tempo, não está no espaço e nem na matéria. É um mundo puramente ideal, idêntico a si mesmo. E aí tem o mito da identidade: é aquele do movimento do eterno retorno sobre si mesmo. Portanto, que jamais varia, jamais muda o seu caminho e por isso permanece, é eterno. Então a idéia do imóvel, ou desse movimento circular que não desvia de si mesmo, como sendo a idéia de eternidade. E isso seria o princípio de tudo o que existe. Ou seja, o que existe não teria sustentabilidade própria, precisaria de uma força exterior, um Deus fora. Bom, agora exercendo um pouco da imanência, a gente então tenta detectar o que é que alimenta essa crença. Como é que, de repente, os homens começam a delirar e buscar outro mundo, buscar a transcendência? Qual a origem disso? É que tem algo nesse Homem que delira. E o que é esse algo que delira? É algo nele de insuportável. E o que é algo nele de insuportável? É uma dor, um sofrimento que não encontra sentido no plano da existência.

Então, o que é intolerável para o Homem, como diz Nietzsche, não é exatamente a dor e o sofrimento: é a dor e o sofrimento sem sentido. Ou seja, ele pode ter a pior das dores… desde que tenha um sentido. Então esse homem atormentado, atolado, submetido, separado do que pode, acaba delirando e criando uma outra zona de realidade. E, ao mesmo tempo, ele avalia que essa zona de realidade aqui na existência, nesse plano de natureza, no plano da Terra não é suficiente porque não é perfeita. Por que não é perfeita? Por que o Mal estaria acometendo o Homem o tempo inteiro. Mas o que é o Mal em ultima instância? É o sofrimento e a dor. Então isso vai surgir naquele Homem que não sabe usar a dor e que não vê mais nenhum horizonte alegre através da dor – porque a dor, na verdade, tem sempre um sentido alegre. A dor é sempre um instrumento, sempre um meio de modificação de si que faz a potência crescer. Se não existe mais esse uso, se eu desaprendo ou me torno muito piedoso em relação à dor, se começo a levá-la muito a sério, então ela vira sinônimo de imperfeição e de falta. Esse é que é o mal. Então, a dor torna-se testemunha de que esta existência não tem suficiência, de que a natureza não tem autonomia, não tem forças próprias. Ou seja, que é preciso uma força exterior. E esta existência, na verdade, seria apenas um meio de punir vidas passadas ou então… Bom, daí aqui nós vamos ver mil delírios! Você tem os espíritas, você tem os católicos, mil variantes do mesmo sentido fictício que é afirma que a ‘a existência é, no fundo, uma via crucis’. Ou seja, nós existimos para cumprir a nossa parcela.

Nathalia – Para expurgar as culpas.

Fuganti – Isso! A existência como um expurgo, isso aí. E é aí inclusive, que o cristianismo vira mestre de todos. E é São Paulo que vai ensinar essa balela. Paulo, aquele sujeito cheio de ódios e que vai ensinar a ‘alegria e o amor cristão’, ele vai dizer: ‘na verdade, eu sofro porque sou pecador. Mas é porque eu sofro que eu posso expiar meus pecados e me unir  novamente a Deus, ser salvo’. Então, ele conclui dizendo ‘alegrai-vos irmãos, porque o sofrimento é fonte de salvação’. Essa é a alegria cristã, essa coisa obscena! Diz Henri Miller: ‘Isso é que é obsceno!’ Obsceno é sofrer desse jeito, levar a sério esse sofrimento com esse sentido. Isso é que é pornográfico! Há esse autoflagelo, esse ‘masoquismo’ ou esse ‘sadismo’ – apesar disso não ter nada a ver com esses grandes artistas que foram Masoch ou Sado, mas com o que foi feito do pensamento deles, essa interpretação se fez da obra deles – mas enfim, esse sadismo em ver os outros sofrerem e gozar com isso, gozar com o rebaixamento e o sofrimento da vida. E isso vai ter exatamente o sentido de criar um poder. Quer dizer, na medida em que a vida é miserável, em que se constata ela como miserável, mas a gente cria um sentido pra isso o que ocorre é que a gente acaba criando, ao mesmo tempo, um império. Um império espiritual! Mesmo que o Reino de Deus, ou o Reino de Jesus, seja de ‘outro mundo’, como dizem os evangélicos.

Nathalia – Em outras palavras, o que Paulo falou foi ‘bem aventurados os que não podem’…

Fuganti – Isso… E os miseráveis, porque deles será o Reino… do ódio, no fundo, né? Porque daí eles vão se vingar direitinho de toda a vida que, de alguma maneira, for intensa. É uma coisa espantosa, se for levar a sério o que é feito disso. Mas a questão que eu queria levantar é que, do ponto de vista da imanência, a transcendência é o delírio de um corpo sofredor. Nietzsche já diz isso no Zaratustra, que Deus vem da costela de um corpo sofredor, de um Homem que não sabe sofrer. Que não suporta o sofrimento, logo quer fugir do seu corpo, fugir da terra, então ele inventa outro mundo. Mas esse outro mundo ainda é um suspiro do seu corpo, porque ele ainda quer se preservar porque, no fundo, se ele realmente quisesse ir para o outro mundo ele se mataria. Por que ele não se mata logo, então? Ao invés de ficar aí se arrastando na terra? Sabe, ele não é honesto! Ah, ele ainda tem que expiar os pecados, etc? Mas enfim… O Nietzsche vai detectar que inclusive esses são hipócritas e mentirosos, eles no fundo querem ainda ficar na Terra e permanecer… É que nem as vidas mais medíocres que a gente vê: quanto mais impotente é, mais longamente quer viver. Porque acha que ainda não viveu o suficiente e a morte o apavora. O que terá ainda de fazer até poder ter uma boa morte, né? A pessoa nem sabe o que fazer. Ela se apavora e vai vendo que os anos vão passando, vai se aproximando da morte e o que ela fez da vida dela, não é?

Nathalia – Não viveu essa imanência.

Fuganti – E nunca vai viver, dentro desse ponto de vista. Vai pro inferno? Não. Tá tudo certo, não inferno, não tem céu… Só que simplesmente ela desperdiçou a vida, né. Mas isso, da perspectiva da natureza é irrelevante. A natureza se dá esse luxo de desperdiçar os seus seres, porque ela os faz aos milhões. Assim como, sei lá, ela faz milhões de mosquito e muitos deles serão dedetizados. Enfim, então, também o homem joga fora sua vida e tá tudo certo. A natureza é exuberante, ela não precisa do Homem. O Homem é que precisa encontrar a natureza nele. Então o que é a transcendência? Na medida em que eu estou separado de mim mesmo, eu acredito que a fonte de realidade está fora, num outro plano. Isso é quando eu acredito numa transcendência. A imanência é quando eu percebo que tudo se faz no meio, e não na origem – seja ela remota, longínqua – ou num fim… Mas é no meio. O que é o meio? É sempre um meio de acontecimento. E o meio de acontecimento se confunde com apropria existência. Quer dizer, existir é uma zona de acontecimento. É na zona de acontecimento –  que está dentro da natureza, da vida – que a vida se encontra, que ela se inventa, que ela acontece e se eterniza. Ele é eterna aí. Não há nada fora. Se você quiser usar o termo ‘Deus’, então Deus é a própria natureza. Ele é imanente está aqui, em cada ato…

Nathalia – Ele seria produção constante de si, das coisas e das diferenças?

Fuganti – Ele é uma potência de se produzir e de se modificar a si mesmo, através de cada modificação dessa potência absoluta.

Nathalia – E com toda essa generosidade de produzir-se incessantemente, não importando o destino que cada coisa terá. Simplesmente produzindo…

Fuganti – O que é incrível aqui e eu acho que dá pra gente encontrar isso em Espinoza, apesar de muitos espinozistas sequer suspeitarem disso, é que uma vez que esse Deus de Espinoza tem infinitos atributos, o que então é o atributo de Deus? É a potência infinita de acontecer. Ora, ele tem infinitas potências infinitas de acontecer. Por exemplo, o pensamento é uma potência infinita de acontecer. Então, tudo pensa. O Sol pensa, a árvore pensa, a minhoca pensa. Há pensamento em tudo, é uma potência infinita de acontecer. Para cada corpo existe uma idéia, um pensamento. Então, essa potência infinita de acontecer é uma abertura. É uma abertura! Deus não precisa de segurança! Que venham mil Diabos…É tudo abertura! Então, essa abertura, na verdade, ao invés de deixá-lo mais triste, mais impotente e mais velho –como acontece com os homens reativos, que a vida vai passando e ele vai ficando mais velho, mais cansado, mais feio, mais doente, dolorido, mais tudo –  o Homem ativo (ou esse Deus de Espinoza) fica sempre mais forte! Quanto mais abertura, mais ele se potencializa: o que não me mata me deixa mais forte. Ora, a gente é capaz de viver sob esse ideal? Acho que isso é um desafio. Ao invés de fechar, a gente abrir. Mas abrir não de um jeito lascivo e ‘tudo vale’. Não é assim, nem tudo vale. Mas o critério de validade ou não se baseia em ‘Bem’ ou ‘Mal’. É um critério de profundidade, do que me intensifica e do que me desintensifica, do que me torna um trapo e do que me torna mais potente. Aqui é que está o critério! O critério ético é diferente da escolha do Bem e do Mal. Eu não estou vendo o que é bom e o que é mau, o que é justo ou injusto, verdadeiro ou não verdadeiro, o que é útil e o que é nocivo. Estou vendo o que me acontece na medida em que eu me efetuo, segundo a maneira que eu sou capaz de criar para me efetuar. Então eu sou corresponsável ou essencialmente responsável nesse acontecimento de mim mesmo. Aqui é que está a escolha. Aqui está a seleção, o critério! Então aqui eu percebo que tudo está na imanência. É por isso que nós temos a vida que merecemos.  É por isso que há o eterno retorno. E eterno retorno nunca é o eterno retorno do mesmo sobre o mesmo. A cada retorno é a potência que se modifica e se difere de si mesma. É o retorno da diferença, do que difere. A potência absolutamente infinita de diferir de si mesmo. É por isso que nunca se esgota. Se fosse sempre o mesmo, olha que coisa enjoada. Imagine, Deus morreria de tédio e a gente junto. Acabaria o desejo. O buraco vingaria, uma grande depressão, o nada. Sempre esses mitos antigos que falam da conflagração universal, né… De que há a origem, o desenvolvimento e o fim, daí volta pra origem, desenvolvimento, fim, volta… Essa coisa enjoada, essa mesmice pela eternidade a fora. Isso não faria sentido. Não haveria movimento. O movimento não é voluntarista, a partir da minha psique. O desejo é real, é um acontecimento que me atravessa. É esse o foco. É o que Nietzsche chamava de ‘o fio de Ariadne’, a superfície do acontecimento, sem o que não há efetuação dionisíaca. Esse fio de Ariadne, esse ato do acontecimento que faz com que o intensivo se continue a si mesmo de modo intensivo. Então aqui você tem imanência. Ou seja, o ato é imanente à potência. Não há potência sem ato. No fundo é isso que é imanência. Aristóteles acreditava que a matéria era a pura possibilidade de receber a forma que tinha o ato. E até acreditava que a forma era masculina e a matéria era feminina. E que a matéria não tinha ato nenhum. Na verdade, não existe potência sem ato. Ainda que seja um mínimo de ato, sempre tem um ato. E é por isso inclusive que eu posso afirmar que ao desejo não falta nada. Porque o desejo não é uma mera potência sem ato: já tem ato nele. O que é o ato nele? O próprio fato de existir, de respirar já é uma efetuação de desejo. De respirar, de comer… Ou de ver o tempo atravessando isso, fazendo isso… Pronto, já está atualizando, já está preenchendo! Porque o tempo já é o preenchedor. Então este é o ato da potência – o próprio tempo. E aí o tempo já é fonte de eternidade e não mais horizonte da morte.

Nathalia – E será o nosso assunto do próximo encontro, quando partirmos para a letra T…de Tempo.

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Um comentário em “I de IMANÊNCIA

    E ou É? | sonora letra disse:
    21 de abril de 2013 às 02:22

    […] I de IMANÊNCIA […]

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