E ou É?

Postado em Atualizado em

Nathalia – Então, nós ainda temos 8 letras! Creio que não vamos conseguir dar conta de todas hoje… Bem, voltando para a letra E, eu tinha algumas palavras em mente… Mas então, lendo Conversações com Deleuze, eis que me deparo com esta fala onde ele comenta Godard, explicando que ninguém compreende a maneira como ele trabalhar a partir do E. A conjunção E. Ele segue dizendo que nós usamos muito o É, ou seja, sempre nos remetendo ao ser em si, a uma essência irredutível, uma identidade… Mas quando usamos o E, falamos de algo que é isso e isso e aquilo… Ou seja, sugerindo multiplicidade e diferença, em lugar de uma essência.

Fuganti – Sim, exatamente. Já Hume era um filósofo do E. Hume é do século XVII e é o filósofo que mais investe na conjunção E. O É foi o começo da decadência da filosofia. ‘Isto é aquilo’, ‘isto é isto’. Então, você imagina uma natureza, um substantivo, um sujeito e encontra os seus atributos que constituem a identidade dessa natureza. Você vê a natureza de modo estático. E o “E, na verdade, é uma ligação. A vida existe já de modo plural, tem várias ligações ao mesmo tempo. E cada ligação leva a várias outras, que também acontecem ao mesmo tempo. Outras ainda acontecem de modo sucessivo. Algumas ligações coexistem e outras se sucedem. Então tudo funciona por conjunção, por agregação.

Nathalia – Ele cita o exemplo da porta da fábrica que não é a mesma para o operário quando ele entra para trabalhar, ou quando ele sai por ela no fim do expediente ou quando ele passa em frente a ela desempregado.

Fuganti – Exatamente, é isso mesmo. Você sabe que existe um etólogo chamado Uexkull, que escreveu uma obra fantástica chamada ‘Dos animais e dos homens”, e ele diz assim: O que é um objeto? O objeto é um sentido. E o que é o sentido? É sempre uma relação. Exemplo, uma pedra. O que é uma pedra? Você usa ela para revestir o chão, fazer um caminho e ela vira um calçamento. Mas se eu uso ela para atirar num animal ou em alguém ela vira uma arma. Então, uma coisa é a função caminho de pedra, outra coisa é a função arma. ‘Ah, mais foi o mesmo material que eu usei, o material pedra’. Bom, mas não é o mesmo objeto. Então a pedra é isso e aquilo e aquilo outro… Por exemplo, uma árvore para a formiga é um mundo! E para um dono de serraria ela é mais um cifrão no bolso, né? Ou para o pica-pau, é o seu alimento. Então, o que faz Deleuze? Por acaso ele diz ‘a árvore é isso’? Não, ele diz que a árvore é isso e isso e…  Ou seja, ela devém, ela se torna muitas coisas, dependendo do encontro que ela faz. Ela é uma potência de realizar encontros. E cada encontro tem um sentido ou vários sentidos. Cada encontro onde tem um acontecimento tem uma pluralidade de sentidos. Dependendo da força que se apodera desse encontro, vai criar um sentido.

Nathalia – O que tem a ver com o que você estava falando a respeito de não existir um ‘sujeito’, não é?

Fuganti – Sim. Mesmo porque a árvore, por exemplo, se modifica na medida em que ela se encontra com as coisas. Ela se modifica na medida em que se relaciona com o pica-pau. Ela se torna outra coisa. Então, cadê o ‘sujeito árvore’? Não tem o sujeito árvore. A árvore é uma potência de se modificar a si mesma. Ela se torna diferente dela mesma a cada momento. Então, onde é que está o sujeito ou a substância? Ela não fica. Diz Espinoza, ‘não há substância, o que existe é modo. O que é modo? É potência de modificação. Não tem substância.

Nathalia – Neste sentido, falar em ‘identidade’ perde completamente o sentido. Seriam ‘entidades’?

Fuganti – A identidade é uma função de poder. Ela é inventada para exercer controle, para enquadrar, para julgar… A identidade é um instrumento de poder. Porque, no fundo, a identidade é sempre simulada. Ela não existe. O que faz com que eu acredite que eu sou o mesmo agora em relação ao que eu era há 20 minutos? O que faz com que eu acredite que você seja a mesma que entrou aqui e a que está aqui agora?

Nathalia – E, de fato, não me sinto a mesma.

Fuganti – A consciência só compreende o efeito de nós mesmos. Como ela é ignorante das causas, ela vai inverter: ela vai por o efeito no lugar da causa. E assim ela começa a encadear as coisas, vai dizer que ‘isso é efeito e isso é causa’, ‘isso causou aquilo’. Então ela vai criando uma cadeia, uma continuidade, desde a nossa origem até o nosso fim. Vai criando uma cadeia contínua de ‘bom sentido de mundo’ desde o meu nascimento, desenvolvimento do meu corpo e da minha mente, até o estágio atual da minha vida ou até quando eu morrer. Ela vai formando o mesmo em mim. Um mesmo que fica mais complexo, que vai adquirindo outros elementos, mas que ela acredita que é o mesmo. E isso é uma grande ilusão, porque a consciência é a parte mais rasa de nós mesmos. Ela é o último efeito de luz da imagem. A consciência não tem profundidade, quase. Claro, estamos falando da consciência enquanto resultado de encontros. Existe a consciência como resultado de acontecimentos, como resultado de autênticas experimentações, de pensamentos. Então a consciência do pensamento é diferente da consciência da imaginação. Ainda assim, por mais que seja a consciência do pensamento, ela é sempre efeito. Nunca a consciência é causa. Como nós acreditamos que somos os mesmos, jamais estamos no pensamento: estamos na consciência. É a consciência que apreende, digamos assim, a mudança a serviço de um mesmo. No entanto, se há pensamento de fato, eu sei que a mudança me modifica a mim mesmo na essência. E não simplesmente agrega experiências a um mesmo que se torna mais inteligente, que se torna mais sábio, que tem o mesmo corpo, a mesma idade, o mesmo ideal… Isso tudo é uma ilusão. Bem, mas funciona? Sim, funciona enquanto os homens se contentam nesse nível de acontecimento da vida e de experimentação de si mesmos. E aí o que ocorre? Ocorre que o homem acaba não desenvolvendo mais uma vontade de se aprofundar, porque ele começa a temer essas forças que nos constituem. Essas forças começam a nos ameaçar, porque nós sistematicamente as abandonamos, apesar de elas estarem aí, pois sem elas nós não existiríamos. E, no entanto, a gente acha que elas são caóticas, que elas ali estão nos ameaçando. E a gente se defende delas o tempo inteiro… Dessas forças, desses afetos, desses impulsos. A gente faz o quê com eles? Se eles são anárquicos e caóticos, a gente os submete a uma ordem racional, a uma representação que, no fundo, é uma cadeia de signos. A gente da forma a eles, a gente traduzou seja a gente trai essas impulsões. A gente trai quando a gente traduz, porque ao traduzir a gente inverte: a gente acha que são forças anárquicas quando, na verdade, são forças necessárias, constituintes do nosso corpo intensivo e da nossa mente intensiva. Mas esse corpo e essa mente intensivos não encontram lugar na sociedade. Não tem lugar para o acontecimento na sociedade. O acontecimento acontece    às costas de nós mesmos. Então você sempre precisa dar formas ao acontecimento, formatar o acontecimento. E com que se formata? Com a consciência. Qual das consciências? Aquela mais miserável, ou seja, aquela que está no lugar da nossa impotência de acontecer.

Ou seja, a gente sempre bota uma forma no lugar do acontecimento. O acontecimento é nadificado, esse é o ponto. Então há uma nadificação do acontecimento. Porque o acontecimento, de fato, não existe, mas aí a gente confunde aquilo que não tem existência como sendo nada. A gente não vê a realidade do que não tem existência. Porque realidade não se reduz ao que existe: há uma realidade que é não-existente. Então há uma dimensão do acontecimento que é não-existente, que nunca vai se reduzir à existência. A existência é uma parte do acontecimento. Aí a gente diz assim: ‘ah, então se ele não existe, ele é nada’. Mas quem disse que o que não existe é nada? O que não existe é real e é virtual! Se fosse nada, então eu simplesmente reduziria a realidade ao campo das formas. Mas quem disse que as formas são a última palavra em realidade? Ao contrário, elas são o último efeito da realidade!

Enfim, então esse aspecto que faz com que a gente nadifique o acontecimento é o mesmo aspecto que faz com que a gente invista na forma, na representação, no objetivo, no controle, na razão… A gente desacredita no acontecimento e acredita no outro mundo, acredita na forma ideal! Aí chamam esses que são ateus de niilistas! Engraçado, né? Inverte tudo. O niilista, o descrente é ‘aquele que não acredita no outro mundo’. Ora, mas não é o contrário?! Niilista não seria aquele que inventou o outro mundo? E que desacredita na vida e no acontecimento?

Então a vida é minada, a confiança no acontecimento é minada. Por quê? Porque o acontecimento não tem realidade. E pra quem ele não tem realidade? Pra quem vive entupido, atolado. Como diz Nietzsche, vive no ‘pantano do niilismo’. O que é o ‘pantano’, pra Niezsche? Ele usa esse símbolo para falar sobre esse atoleiro, que são as paixões. O que é atolar-se nas paixões? É ser incapaz de manter as paixões como fluxo. Mas, para manter a paixão como fluxo, ela tem que virar ação, ela tem que se transformar em ação e intensidade. Mas não! A gente se atola na paixão e cristaliza a paixão! E quando isso acontece, a gente acredita que aquilo é uma substância em si. Ora, mas aquilo é só uma paixão atolada! Então é esse nosso atoleiro afetivo que faz com que a gente desacredite no acontecimento, porque de fato o acontecimento não existe e não é real se a gente está atolado afetivamente. Aí o que ocorre: eu confundo a parte do acontecimento que existe com um fato, eu o reduzo a um fato. Mas o que é um fato? É uma interpretação. É igual à Folha de SP dizer que ‘Hugo Chaves é um ditador populista’, esse é um fato da Folha de SP ou do capitalismo e tal. E como se explicam os outros acontecimentos que a mídia nem relata, nem dá conta?

Nathalia – Tanto que há uma frase no próprio jornalismo que diz que ‘um fato que não é noticiado não existe’. Porque o fato é a notícia…

Fuganti – Não é?! E para o homem reativo é a mesma coisa. E aí fica um pouco pior se a gente for mais a fundo: mesmo que você desminta o fato, diga mil vezes que aquilo é mentira… Na milésima primeira vez, quando eu deixo de desmentir, eu volto a investir naquele fato mentiroso! Por quê? É porque ‘eu tenho o mal dentro de mim’? Não! É só porque o fraco precisa daquela mentira. É só por isso. É uma questão de fraqueza, não de mal na essência. Eu não acredito em Diabo, em Mal… E nem no Bem, não é? O Bem e o Mal são duas ficções. É preciso chegar à necessidade da mentira: Por que o homem inventa? Por que se agarra em fatos? Por que a mídia é mentirosa? Porque sem isso não há continuidade do poder. Isso é necessário. Então, ao invés da gente ficar indignado, como Chomski que fica indignado com a mídia americana…

Nathalia – Quer dizer, é chutar galinha morta… Todo mundo já sabe como a coisa funciona!

Fuganti – Não é?! Então a gente tem que começar a cuidar de si mesmo! E não tem nada a ver com egoísmo isso. Ao contrário, é a coisa mais básica, mais be-a-bá! Cuidar do corpo, cuidar da mente, do desejo…De que maneira eu existo e crio as condições da própria vida se efetuar em mim? Que uso eu faço da minha linguagem? Eu estou neste momento fazendo uso da minha linguagem, falando, ouvindo… Enfim, eu faço um uso disso. Que uso eu faço da minha sensibilidade, do meu olhar, do meu ouvido, do meu ânus, do meu pulmão, dos movimentos do meu corpo, do meu sono, da minha vigília? Que uso eu faço dos alimentos? Então eu sou corresponsável, sou cúmplice – não culpado, mas cúmplice. Então é essa zona de cumplicidade que é fundamental a gente detectar. E enquanto a gente não detecta, fica sempre ou acusando o outro ou acusando a si mesmo. Não é? De maneira que a cumplicidade tira a gente da culpa, tanto da acusação do outro – que é o ressentimento ou o ódio – quanto da acusação de si, que é a má-consciência ou o remorso. Ultrapassam-se esses dois venenos da vida para dizer assim: “O que eu estou fazendo daquilo que me acontece? Porque onde é que está o pior dos males? Não está no mal que me acontece, mas no mau uso do mal que me acontece. Aqui ele está! E, outras vezes, no mau uso do bem que me acontece. Então eu sou cúmplice disso. Por que eu não começo a tomar a minha vida nas próprias mãos, ao invés de acusar, de choramingar, dizer que o mundo está errado?

Nathalia – Para se esconder da própria mentira…

Fuganti – Não é? Aí é fácil! É isso aí… Ou seja, uma desoneração de si, uma desobrigação de si! E os mais moralistas são os que mais fazem isso. São os mais irresponsáveis diante da vida. Eles não cuidam de si, ficam se metendo na vida dos outros, querendo controlar a vida dos outros, porque a deles mesmos já nem tem mais o que controlar: pois que já nem tem mais força ali para acontecer! Diz Nietzsche: ‘a Moral foi inventada para controlar as forças animalescas do Homem’. Ah, mentira. A moral foi inventada para esconder que já não tem mais força nenhuma dentro do Homem! Então, enquanto eu não vejo o acontecimento como fonte de desejo e de realidade, como motor do real, eu vou precisar do ideal.

Continuação:

I de IMANÊNCIA

Anúncios

2 comentários em “E ou É?

    D de DESEJO | sonora letra disse:
    10 de abril de 2013 às 19:16

    […] E ou É […]

    S de SUSTENTABILIDADE | sonora letra disse:
    21 de abril de 2013 às 02:18

    […] E ou É […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s