S de SUSTENTABILIDADE

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Nathalia – Bom, aí eu estou aqui com uma questão…Por ora, vou pular o E, passar direto para a letra S. Eu trouxe a palavra SOCIEDADE, mas aí ouvindo você falar, senti um desejo de falar sobre um outro conceito que está na moda hoje, que é a ideia de SUSTENTABILIDADE. Bem, eu queria saber o que você tem a dizer sobre SUSTENTABILIDADE.

Fuganti – É…Olha, eu acho que é uma grande hipocrisia o que se fala sobre sustentabilidade. É igual ao que se fala sobre a ‘diferença’. Na verdade, as pessoas não amam a diferença, não têm um gosto honesto em relação à diferença. Elas toleram a diferença, né. E aliás, é politicamente correto agora ‘tolerar a diferença’. Então não há de fato um amor, uma afirmação. Em relação à sustentabilidade é a mesma hipocrisia… Por que o que é sustentável? O homem se criou como um tipo piedoso, um tipo passional e reivindicativo. Então, ele sempre reivindica direitos. Ele tem que ter direito a isso, direito àquilo, mas ele mesmo raramente faz a lição de casa. O que é a lição de casa? A lição do corpo, a lição da mente, a lição do seu desejo. É ele se produzir como um tipo forte. Então ,só quando ele se produz como um tipo forte – força aqui é força de criar e não de dominar ou de se apoderar do outro, porque isso não seria força, seria uma fraqueza com ilusão de força – mas, realmente, aquele que é capaz de criar, de criar a realidade, ele se torna generoso e, aí sim, tem autonomia e tem sustentabilidade. A sustentabilidade só acontece quando eu crio em mim um modo de viver, de tal maneira que esse modo de viver retorna sobre mim em forma de aumento de força, aumento de potência. Potência de criar. Aí existe a sustentabilidade. Mas enquanto eu me apoio numa rede social de direitos e de ‘boas formas’, ‘boas condutas’, esperar do outro que ele me reconheça, que ele veja o que é necessário ao meu bem, que eu veja o que é necessário ao bem dele ou então ‘a minha liberdade vai até onde se inicia a do outro’ essa coisa kantiana escrota… Enquanto a gente ficar insistindo nisso a gente está se desviando, a gente está choramingando, a gente não cuida daquilo que interessa. A gente tá se desviando do verdadeiro problema que é de se produzir enquanto um tipo forte, um tipo potente, criador e não um tipo gregário, um tipo que vive em rebanho, que tem que viver colado, se chafurdando no rebanho, na sociedade…’Ah, sem o outro eu não vivo, e mais o outro, e mais o outro” e vira aquela rede gosmenta, intolerável, de gente que precisa estar no facebook mostrando sua vida para Deus e o mundo e ‘olha o que eu estou fazendo agora! olha o que eu estou fazendo agora! olha o que eu estou fazendo agora!’… Essa futrica, esse chafurdamento generalizado! E, raramente, você vê alguém cuidando da própria vida e aí até mostrando isso no facebook, sim – por que não? –as coisas interessantes que está fazendo, criando realidade. Mas em geral não, em geral você ama o outro para se entorpecer, assim como você odeia o outro para se entorpecer também, né. Então o ódio, o amor, a dor e o prazer… O entorpecimento ou as anestesias possuem várias figuras, mas isso sempre a serviço do ressentimento, ou seja de um corpo atolado, de um corpo que perdeu as fontes de criação. Aí o que a gente chama de sociedade é esse meio onde o homem se apoia um no outro, no fundo um vira a bengala do outro, a muleta do outro e ‘somos todos necessários, coletivamente’ e ele se descuida de si. Então, Espinoza tinha uma ideia que ele expõe no livro IV da Ética, onde ele fala da servidão humana. Ele diz que toda sociedade humana necessariamente mantém a vida humana na servidão, a civilidade é um modo de ser servil. Ou seja, não existe sociedade sem a servidão. “Ah, mas então é só isso? Como é que o homem vive fora de uma sociedade?” – Pois Espinoza concebia uma comunidade de homens livres, à diferença da sociedade, para te responder às duas questões, sobre sociedade e sustentabilidade E eu diria a mesma coisa em relação à sustentabilidade: só existe desenvolvimento sustentável se, de fato… Ora, se o sentido é sempre duplo, eu estou indo em direção ao progresso e a um progresso que é sustentável, ao desenvolvimento, a um futuro que é sustentável, aquilo tem que retornar para mim em forma de força. E, na medida em que retorna a mim em forma de força, eu não preciso mais explorar ou sugar a natureza, mesmo que seja de ‘maneira racional’, com vistas a não esgotar os recursos da Terra. Porque mesmo assim eu estou me apropriando, simplesmente, e não estou gerando nada. Tipo um fotógrafo, um turista, que começa a tirar fotografias de tudo onde ele vai…Ele tira foto ao lado da estátua, ao lado duma folha, da Torre Eiffel, estive aqui, estive lá, ou então ele suga daqui, suga de lá e não dá nada para aquela imagem. Aquela imagem é só um registro de marcação de território ou de poder, né, de reconhecimento. É a mesma coisa. Então o homem tem que dar algo pra vida, antes de ele dizer assim ‘eu tenho direito a viver’. O que é o direito? ‘Direitos Humanos’ – é uma grande mentira a questão dos direitos humanos! Tanto é que agora tem um cara lá que é um homofóbico e racista que tá ocupando a direção dos direitos humanos. Aí dizem assim ‘ah, mas isso é contraditório’… Mas quem disse que é contraditório?! Contraditório é achar que os direitos humanos estão realmente defendendo os interesses mais interessantes da vida intensiva! Isso é uma grande ingenuidade…É óbvio que não! A ‘forma Homem’ que dá direito a esse Homem estúpido, ridículo, medíocre, que se encarcera nessa forma… Ora, essa forma já é fascista nela mesma, então como é que eu vou ficar indignado que alguém fascista vai ocupar uma forma que, na sua essência, é necessariamente fascista?!

Nathalia – Tá tudo em casa, né?

Fuganti – Como é que você vai acreditar que existe uma ‘forma do Homem’? Essa forma do Homem é uma camisa-de-força, é uma gaiola! É o que o Kant queria. Ele quebra a gaiola, depois ele reconstrói a gaiola, entra nela de novo e fecha a portinhola! Entendeu?! Ele fez isso, o Kant! Ele disse assim: ‘eu não quero mais ser escravo de um tirano, de Deus, nem disso ou daquilo, eu quero ser escravo de mim mesmo’. Ah beleza, então bom proveito! Você vai se escravizar dessa forma, ou seja, você acredita num ‘dever ser’ ao invés de associar a sua vida a uma potência de ser e de criar, não é. Você começa a botar o ‘dever ser’ na frente da potência de criar. É isso o que ocorre com os direitos humanos. Então, o homem que reivindica direitos não sabe, assim como valor, que o valor em si não existe – que o valor se cria. Nesse sentido, o direito é sempre o direito de uma potência. ‘Ah, como pode ter acontecido isso, isso e aquilo na história da humanidade? Com que direito?!’ – Com o direito das forças que aconteceram! Com que direito o Etna expele sua lava e mata milhares de pessoas? Ora, com o direito da potência das forças da natureza, entendeu?! Então eu que saiba como relacionar com o Etna, ao invés de ficar acusando o Etna de assassino.

Nathalia – Manchetes em todos os jornais essa semana: ‘As chuvas castigam a cidade de São Paulo’…

Fuganti – Não é? As ‘chuvas castigam São Paulo’! Aí é o frio, é o verão, é enchente, acontece isso, acontece aquilo e o homem tá sempre se queixando, mas ele que aprenda a se relacionar, que crie modos, que se faça forte! Então, esse discurso choraminguento dos direitos, ele achar que tem uma ‘instância’… E que instância vai garantir os direitos?! A ONU, por um acaso, garantiu o direito dos iraquianos? O que aconteceu com os iraquianos, ou com os moçambicanos, ou tantos outros países que eles invadirão? ‘Ah, os Estados Unidos não têm o direito de invadir, de desviar a ONU’, mas eles foram lá e fizeram o que fizeram! ‘Ah, o tribunal de Haia vai julgar os criminosos de guerra’ e o Bush, está aonde? E o Obama, que é um cara que ‘representa os negros’ etc e tal, que era a ‘diferença’?! Mas quem acreditou nessa balela?! O cara tá fazendo a mesma coisa, só que de modo mais refinado! O Ratzinger agora, ele teve que sair. Por que? Claro, ele era muito grosseiro. Bota um cara um pouquinho mais refinado ali, é óbvio! Então, tem uma hora que choca demais, aí não dá! O outro era pedófilo, nazista e outras coisas mais…

Nathalia – Aí pegou pesado, né?

Fuganti – É, pô! Põe um cara um pouquinho mais refinado, não é pra dar tanto na cara! O que ocorre? Os tribunais, as instâncias… O tribunal de Haia, vai ver o que ele julgou. Só julga gente tipo Kadafi, sei lá quem… E até, se bobear, o Hugo Chaves se ainda estivesse vivo, quem sabe não ía também ser julgado como criminoso de alguma coisa?! Então, os tribunais são inventados por forças! Não tem nada que sustente, senão a força. A questão tá não na forma ideal ou democrática que garanta o direito à vida e à diferença, mas na qualificação das forças. A gente tem que deixar de ser hipócritas: nenhuma forma vai garantir a nossa vida, tá? Espinoza mesmo viveu numa Holanda extremamente turbulenta. Houve uma hora, simplesmente, em que eles assassinaram os irmãos Witts, acabou a Holanda republicana, os monarquistas orangistas triunfaram e pronto, acabou a liberdade até de pensamento, até de expressão! Então quem é que garantia a tal da liberdade de expressão? Era todo um conjunto de forças. Não adianta você dizer ‘oh, olha a ditadura militar que aconteceu aqui”…

Nathalia – E pega o caso de Hitler…Como Hitler surge? São as várias linhas que se criam e faz surgir o sujeito, né?

Fuganti – Não é? Então, são várias linhas de força que sustentam isso. Quer dizer, não adianta simplesmente o Homem acreditar que ele tem direitos, assim como valores a serem seguidos.

Nathalia – Que ele está protegido por alguma instituição…

Fuganti – Né? O valor a ser seguido. Vem daquele desejo do homem impotente que acredita no ideal, do homem que não tem presente e se contenta com futuro. Então ele acredita no valor em si. Agora, o que é o valor, no fundo? O valor vem da maneira de acontecer que faz com que a minha força se intensifique, a minha potência seja mais capaz de criar as próprias condições da sua existência. Aí eu estou criando valor! Então, é isso que dá direito! O direito vem da força, do jeito de criar, do jeito de se efetuar e não de uma forma verdadeira. Quem acredita na Verdade? Em nome da Verdade se fez tanta coisa! Em nome de Deus, em nome do Bem… Ninguém fala em nome do Mal, ninguém fala em nome do Diabo! É muito raro alguém falar… (risos)

Nathalia – Ninguém se assume do ‘lado do mal’! Todo mundo é do bem, todo mundo ‘quer o bem’ e essa guerra santa…

Andrea – Todo mundo é filho da luz…

Fuganti – Ah, não, é todo mundo do bem! E eu tenho pavor dos ‘homens de bem’… Os vizinhos aqui são todos do bem! (risos)

Nathalia – Isso esbarra naquilo que você fala sobre as ‘trocas’ que se faz em sociedade…Em troca de uma certa ‘segurança’ eu abdico um pouco da minha liberdade, porque aí tem uma Lei que vem e normatiza tudo me dando alguma ilusão de a gente está proteção, justamente por uma certa instância…

Fuganti – É, porque a nossa ideia de liberdade é completamente equivocada. Ela tá aonde? Se você for analisar a civilização ocidental, você vai ver que ela tem muitas origens, as causas são múltiplas. Mas há algumas coincidências e elas se repetem e vão se substancializando, de tal modo que a gente acredita que é uma coisa só, vira um bloco. Exemplo: a ideia de sujeito. Sujeito de interesse e sujeito de direito, por exemplo. Esse sujeito, na verdade, sempre foi um assujeitado. Ele começou a ser assujeitado na ideia de ‘ideal’. Ele cria um outro mundo, ele cria um Deus, ele é insuficiente. Já Platão, ou Sócrates, diziam ‘uma coisa é o modelo, outra coisa é a imagem do modelo’. A imagem, no melhor dos casos, está em segundo lugar… Ou em terceiro, quarto, quinto. Nunca ela vai ser o modelo. Então há uma carência já ali embutida. Eu acredito que o ‘verdadeiro’ está noutro plano e não nessa existência. E nessa existência, no máximo, eu tenho uma correção moral que se ‘aproxima do verdadeiro’. Então eu vou ‘melhorando a vida’. É por isso que aqueles que querem melhorar a existência são os mais estúpidos. Vai melhorar o quê? O que já é perfeito?! Ora, que aprenda a viver! Crie maneiras de viver ao invés de querer melhorar o que você imagina que é defeituoso! Inocular o defeito por impotência?! Faça a lição de casa, antes de acusar a natureza de defeituosa! Entendeu? Porque não tem defeito na natureza, ela é absolutamente perfeita! Mas se eu faço um mau uso do me acontece, é claro que eu vou ver defeito! Então, o que ocorre? O Homem é cego (de Deus, do ideal e tal) e, a partir daí, ele acredita que ele só pode modificar a realidade ‘melhorando a realidade’, progredindo e evoluindo – nesse sentido do ‘fim’, a partir de uma ‘origem’ – uma vez que ele segue um valor exterior a ele, uma forma exterior a ele. Ora, se ele segue essa forma exterior a ele, ele deseja isso e acha que é aí que ele vai realizar sua liberdade. Pode até ser o mais cínico capitalista, que vê que a liberdade dele vai ser ganhar dinheiro, porque aí ele faz o que ele quer da vida. Você pega o mais puro dos liberais, europeus ou americanos, e você vai ver que o liberal, no fundo, é um miserável. Ele não sabe que o desejo dele já é um atolamento dele mesmo. O que deseja nele? O que deseja nele é uma carência, uma falta, um buraco. Mas ele se empodera, porque ele descobriu um jeito de empoderar, ele descobriu um jeito de ganhar dinheiro, de ser reconhecido, de ter autoridade, aí pronto, ele funciona que é uma beleza! Mas como é que ele funciona? Vai ficando cada vez mais miserável, apesar de cada vez mais rico, mais entupido de tudo, de riqueza, mas ele se torna cada vez mais impotente e são os mais covardes diante da morte. Por quê? Porque não criaram eternidade na existência. Mas tem essa falsa ideia de liberdade. E é com base nessa ideia que você busca a sua segurança. A segurança não é mero coadjuvante, mas sim constitutiva dessa ilusão de liberdade. E por quê? Porque a segurança é sempre uma segurança contra o acontecimento. O acontecimento é sempre ameaçador! Então eu tenho que me cercar de seguranças. Inclusive olha aqui na frente (aponta uma guarita e um vigia na rua), é uma beleza, todo mundo está extremamente seguro! É polícia, é a justiça, é não sei o que e a pessoa tá sempre com o cú na mão! Sabe? Sempre cagado!  Não consegue viver nada de frente…

Nathalia – Tem o condomínio fechado, onde a pessoa faz tudo lá dentro…

Fuganti – É um negócio incrível. Então, não tem experiência com a vida, aquilo que intensifica, aquilo que faz viver está morto. Ora, claro que precisa de segurança, porque o acontecimento é sempre aquilo que difere, que faz diferir. E o que faz diferir sai do controle… É óbvio! Se foge ao controle me ameaça. Então quanto mais sai do controle e me ameaça, mais com o cú na mão eu fico e mais de força e de segurança eu preciso. Pra quê? Pra garantir a minha suposta liberdade. Mas que liberdade?! Então, é um negócio louco.

Maria Fernanda – Então, na verdade, a gente luta pelo atolamento de nós mesmos, não é? Ou seja, você está lá reivindicando que saia o Marcos Feliciano da Comissão de Direitos Humanos porque, na realidade, você quer que a verdade fique um pouco mais ocultada de você…Quer dizer, se é o João Willis que está lá a gente fica mais tranquilo porque ele seria a figura politicamente correta para ocupar esse lugar, de maneira que isso ocultaria melhor toda a farsa por trás dessa estrutura de poder…

Nathalia – Pois é… A gente fica se ocupando com uma causa que desde o início já é um engodo.

Fuganti – É e no fundo, aí mesmo tem tanta mistificação, nesses movimentos. Esses movimentos são cúmplices também. Movimento negro, movimento gay, movimento isso, movimento aquilo, sabe, as minorias… O problema das minorias – que são, na verdade, maiorias, né? – é a busca de uma ‘identidade’. Qual é a ‘forma’ do homossexual feminino? Qual é a ‘forma’ do negro? Agora tá essa palhaçada das cotas, né. Ah então, se você é um pouquinho pardo você já tem direito a cota? Como é que é isso, eles vão medir isso na sua pele? É uma coisa patética. E, no entanto, a gente sabe que enquanto estratégia, enquanto teatro, enquanto jogo de forças, isso pode eventualmente ter os seus efeitos. O problema é que os homens acreditam numa natureza. Na natureza negra, na natureza índia, na natureza do homem branco, na natureza gay, na natureza do gênero etc. E isso é uma coisa extremamente reacionária. Então quem é o mais reacionário: é o hétero ou é o homo? Sabe? Ora, é um pior que o outro! Cada um buscando as suas seguranças, as suas identidades, os seus direitos, né? Claro que é muito interessante, do ponto de vista das estratégias, que você tenha direitos, tá bom. Mas você não vai acreditar que isso constitui alguma natureza, algum valor em si. Isso é apenas uma arma de que você se serve para se defender dos mais escrotos, né? Então, a questão que eu acho essencial, em relação ao direito, é que nós não nos percebemos mais como fonte de criadora de valor. O valor tem que ser inventado, ele não existe em si. O que é a vida, o valor da vida? Mas que vida? A vida genérica? A vida desses tipos que vivem covardemente enclausurados, enchendo o saco de quem acontece? E aí eles judicializam, medicalizam… Porque daí é louco, é delirante, é não sei o quê. As crianças hiperativas? Vitamina nelas. Então a justiça e a saúde estão aí para enquadrar. Faz parte do julgamento humano. Enquadrar o quê? Tudo o que é intensivo, tudo o que acontece. Porque o que acontece não tem controle. Porque é da própria vida diferir. Diferir, inclusive, de si mesma, que dirá do outro então?! Aí o outro fica maluco! Ele, ao invés de acontecer, ele quer que o outro aconteça segundo o horizonte final da vida dele mesmo, sem o qual ele não sobrevive. Então eu tenho que me encaixar no ideal dele, entendeu? Eu tenho que viver como ele, né? E cada um luta por si, então o evangélico quer que se viva de modo evangélico, o judeu de modo judeu…

Nathalia – Isso é que são as cotas, né? Cada um pela sua cota!

Fuganti – É, como o seu quinhão dizendo que esse é o ideal de humanidade que todo mundo deveria seguir. Então é essa hipocrisia em que, na verdade, não se cuida de si. É o que diz Nietzsche: ‘O amor ao próximo é um mau amor a si mesmo’. É um ódio ao distante. E o distante, no fundo, que é constitutivo, que é o que seria o eliminador da violência. O que é a violência, em última instância? A violência é não afirmar a diferença, de modo imediato. A violência é sempre mediatizar a diferença. Vamos ‘domesticar’ a diferença. Esses dias mesmo, a gente estava no farol e era aquele rebanho de carros, cada vez mais engarrafados e ninguém se mexe… Mas aí dá o amarelo e já todo mundo freia! Ou seja, é uma humanidade assim completamente docilizada, submetida! Cadê?! Não tem um mínimo de anarquismo aí! É um humano totalmente enquadrado, as pessoas se introjetam, adoecem, morrem, entram em depressão… Não é?! Porque chega num ponto em que ela diz ‘ah, eu não quero desejar mais nada, quero me enfiar num buraco e nunca mais sair dele’!

Nathalia – Tenho que ser bom, que me comportar, não posso me rebelar…

Fuganti – E por quê? Porque não é civilizado, não é de ‘bom tom’. Você tem de ser cortês, falar de modo delicado, não pode ofender ninguém. Então, o animal no Homem é o que está mais rebaixado. É o animal mais domesticado, mais patético, não é? E é um animal que é essencial. Nós somos animais. A animalidade nossa está aonde? Animal nada tem a ver com selvageria! O animal em nós é do desejo intensivo. E aí vem essa coisa da organização, da razão, da codificação, da territorialização, da extratificação do corpo, da mente, dos afetos… E o Homem vive nessas gaiolas invisíveis, gaiolas semióticas. Investindo cada vez mais nelas e achando que está em liberdade… E está cada vez mais morto. Enfim, claro que isso, na verdade, uma hora vai explodir! E vai explodir de várias maneiras, por vários pontos de vista, isso tudo tem seu destino e é insustentável. Tem uma hora que isso explode.

Nathalia – Isso é que é insustentável!

Fuganti – Isso é insustentável! Então, é interessante a gente desejar que os homens consigam cada vez mais aquilo que eles querem! ‘Ah, eu quero mais dinheiro’, então que se entupa de dinheiro! Vamos acelerar o processo, porque fazer o contrário é estúpido, é retardar, porque isso já tem o seu curso! Se você já não pode mais amar ou odiar, então você seu curso, segue o seu curso, você viva a sua vida e cria o seu mundo. O que a gente precisa é criar mundos próprios, e não viver coletivamente se chafurdando que nem gregário. Então acho que esse é o ponto: mundos próprios. Mas, para isso, tem que enfrentar a solidão e o não reconhecimento. Portanto enfrentar a dor da solidão e do não reconhecimento – que é uma dor muito mais interessante e que vai dar realmente muito mais prazeres intensivos, se a gente persistir no caminho, do que ficar nesses pequenos prazeres, satisfazendo ou preenchendo nossas pequenas misérias cotidianas que assim fazem a vida continuar…

Nathalia – Continuar na impotência.

Fuganti – Exato.

Continuação da entrevista:

E ou É

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Um comentário em “S de SUSTENTABILIDADE

    D de DESEJO | sonora letra disse:
    24 de março de 2013 às 15:33

    […] – S de SUSTENTABILIDADE […]

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