D de DESEJO

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fuganti 1DESTERRITORIALIZAR – Esta foi a palavra escolhida como ponto de partida para essas conversações. Desmembrei-a em suas 10 letras: D, E, S, T, R, I, O, A, L e Z.  Para cada letra, um conceito. E assim levantamos 10 palavras e nos embrenhamos em diversos territórios, cada vereda abrindo-se para um mundo pulsante e em devir, a tal ponto fluido que afugenta toda a linguagem comum. Palavras capazes de guardar tanta potência que fazem calar todo o discurso. Cada letra dá pano pra manga…

O Abecedário de Luiz Fuganti

Letra D de DESEJO

“a gente não quer o poder, só os fracos querem o poder. A gente quer a força suficiente para não precisar de poder, que aí a gente é generoso, a gente é criador, a gente é ‘capaz de’.”

Nathalia – Hesitei muito entre escolher falarmos sobre diferença ou desejo. Por fim, decidi pelo conceito de DESEJO, pois creio que a diferença irá aparecer de qualquer forma.

Fuganti – Sim, podemos falar sobre a diferença também, isso guarda uma relação com o desejo. Bom, é preciso dizer que há muita confusão em torno do desejo, inverteu-se tudo. Mas para falar disso, em primeiro lugar, é necessário fazer uma distinção entre duas forças, que são: a força ativa, ou seja, a força que cria; e a força reativa, que conserva as coisas como elas são. Então, se a força reativa é essencialmente de conservação, o que é que ela, de modo mais nobre e necessário, deveria conservar? Ora, o que ela deveria conservar é a condição da própria criação! Ela é uma força condicional, digamos assim, e não um princípio ativo. Ela é uma espécie de meio, de instrumento ou função pra que a força ativa se expanda e crie realidade. Na verdade, vou ter que fazer um atalho aqui, rapidamente. Porque uma coisa é a força reativa e outra coisa é o ‘tipo reativo’. Existe uma certa condição, humana no caso, em que as forças reativas se tornam dominantes em relação às forças criativas. E, na medida em que elas se tornam dominantes, forma-se no homem o ‘tipo reativo’ e não mais simplesmente a força reativa. E quando o tipo reativo domina, ou quando as forças reativas se põem no lugar das ativas, ou começam a gerir e a comandar a vida, há uma inversão de tudo. Tudo se inverte. Nietzsche vai dizer que há uma imagem invertida que é constitutiva do homem reativo. Este homem inverte tudo. Mas Espinoza diz, de outra maneira, que o homem da imaginação (que, num certo sentido coincide com o homem reativo de Nietzsche), e o homem da imaginação somos todos nós, na medida em que não pensamos, pois a imaginação é dominante, a gente também é necessariamente passional, ou seja, a gente sofre os efeitos de fora e se modifica segundo a regência das forças que nos comandam de fora. A gente sofre a paixão mas não transmuta a paixão em ação.

Nathalia – Que seria neste nível onde Espinoza diz que o homem não pode ser livre, uma vez que ele é governado por essas forças que vêm de fora…

Fuganti – Sem dúvida. E a mente humana faz disso uma idéia, a partir de uma imagem.  Que imagem é essa? É o que resulta em nós, na medida em que a gente se encontra com corpos, mentes ou forças que vêm de fora. Então, a gente se encontra com algo e em nós emerge uma imagem. E essa imagem na verdade é fruto de nós mesmos e das coisas que se encontraram com a gente. Ela aparece em nós e, com essa imagem, a gente avalia e vai conhecer a si mesmo, vai ter a consciência, a ciência de si. E, ao mesmo tempo, vai ter a ciência do mundo, tendo por base uma imagem. E essa imagem, no fundo, não chega nunca na causa. Não pode chegar porque ela é, essencialmente, efeito. Na medida em que ela é efeito, ela não revela a natureza do que a gerou. Então, com essa imagem o homem acredita que conhece as coisas e a si mesmo. Porque essa imagem tem dupla face: uma voltada para si, para subjetividade; e outra voltada para o mundo, para a objetividade. Mas, na verdade, essa imagem revela muito mais, como diz Espinoza, o estado do nosso corpo, o estado da nossa mente e do nosso desejo do que, propriamente, da natureza da outra coisa e mesmo da nossa própria natureza. Porque essa imagem não é expressiva, ela no máximo indica o estado em que eu me encontrava – e que normalmente é um estado de impotência, um estado de paixão – e com esse estado eu vou simplesmente existir, vou reagir, vou me defender, vou lutar, tentar sobreviver. Então nesse estado que forma essa imagem, ele julga o mundo exterior de acordo com o que ele necessita, de acordo com a sobrevivência dele. Então ele tenta moldar o mundo exterior a si, a esse estado que, no fundo, é um resultado nele e não a natureza nele. Então, o que ocorre? Voltando, de novo, à questão do tipo reativo, de Nietzsche, ou ao homem da imaginação, do Espinoza, esse homem que, em geral, somos nós, vive da seguinte maneira: a vida é essencialmente acontecimento, mas ele só vive o acontecimento na medida ou que ele ‘vai acontecer’ ou que ‘já aconteceu’. Aí, o que ocorre? Ocorre que o resultado nele do encontro é um acontecido, é um efetuado. E é com esse efetuado, com esse preenchimento de si, que ele começa a ‘desejar’, ou ele imagina que isso que aconteceu nele na verdade é a origem, é a essência. E isso seria o desejo. Então o acontecido se confunde com a própria potência de acontecer. Aqui há uma confusão essencial em relação ao desejo. Há um corte, pois o desejo começa aonde a consciência dá conta. Mas o que é a consciência? Ela é sempre retardada, ela sempre começa a partir do último ponto do encontro, o último efeito do encontro é que gera a consciência. Ela não tem a duração ou a profundidade do afeto ou da força. Ela já é o efeito último, a última imagem. Então é com essa imagem que a consciência imagina que vai reagir ao mundo e, ao mesmo tempo, ela identifica que aquilo que acontece sobre o corpo e sobre ela era, na verdade, a consciência de um outro ou a intenção de um outro. Então ela imagina que o mundo opera por finalidade e ela mesma vai ter um fim pra si, futuro pra si, um destino pra si, um objetivo, um ideal. Ela deseja um futuro. Ela deseja um objeto, ela deseja uma maneira de viver, um mundo a ser atingido, um nível a se chegar e esse desejo ideal se confunde com a utopia, se confunde com o sonho, a fantasia. E é por isso que o sonho, a fantasia e o ideal são tão nocivos, né…A gente vê muitos homens de esquerda dizendo ‘ah, o sonho é fundamental!’, ‘ah, a utopia!’ e, no fundo, isso é fonte de rebaixamento da vida, de julgamento da vida e de conformação a um estado de miséria! Por que? Porque, na verdade, não é o desejo em mim que se confunde com o acontecido, ou o resultado de mim mesmo, que começa a desejar. Na verdade, eu necessariamente sou uma força ou, melhor ainda, eu sou uma potência – porque a força já é uma potência atualizada – eu sou uma potencia que se atualiza. E o princípio de atualização é o acontecimento. Há sempre um ato que atualiza a minha potência, um acontecimento da minha potência, uma modificação da minha potência. E esse ato está na periferia de mim mesmo e não no centro da minha alma, do meu espírito ou no coração do meu desejo. Essa mistificação que se faz com o centro subjetivo do homem, ou o inconsciente do homem. Esse centro é uma mistificação, já é um buraco, já é uma carência, uma falta. Daí sim a psicanálise teria razão! Sim, porque esse centro, na verdade, é o começo da impotência ou da separação da vida e do que ela pode. Aí começa a se formar nesse centro um buraco, um vazio em mim mesmo que deseja o que não tem. Então essa idéia de desejo, do desejo que carece de um objeto é completamente mistificadora da vida. E é por isso que essa idéia de desejo, no fundo, é tão nociva. Porque ela, na verdade, reforça os ideais de esperança, de sonho, de utopia…É aquilo que diz Raul Seixas ‘quem não tem presente, se contenta com futuro’. Não tem presente, não tem presença. Então, ‘no presente eu sou miserável…mas ah, no futuro o que eu serei?’

Andrea – Eu vou ser quando eu for…(risos)

Fuganti – É…ou eu já fui e lamento que a condição que eu tinha já não tenho mais. Ou então nunca tive e sonho com a condição que um dia terei. Mas o presente, que é o que faz a diferença – e aí tem a ver o desejo com a diferença ou com a potência de diferir…E diferir não dos outros, mas de si mesmo, na medida em que algo acontece à potência, algo acontece ao desejo e o desejo se intensifica, isso é um acontecimento de vida, isso é uma diferenciação de si, aí sim há um preenchimento real; aí sim, deste ponto de vista, ao desejo não falta nada.

Nathalia – Ao desejo não falta nada…

Fuganti – Ao desejo não falta nada, mesmo! Por que? Porque ele sempre necessariamente acontece, mesmo do ponto de vista das vidas reativas. Claro, a vida reativa ou a vida na imaginação nunca vai apreender isso como preenchimento…Ela vai estar sempre na carência, no entanto, ela vai estar sempre preenchida. Por tristeza, por miséria…

Andrea – Mas vai está preenchida…

Fuganti – Vai estar preenchida…Não falta nunca nada! É impossível que a vida não nos preencha, mesmo que seja de miséria, de tristeza, ela preenche necessariamente. Porque o tempo, aqui, é a mesma coisa que o preenchimento. Porque é impossível você deter o tempo! É ele que está te preenchendo! É ele o princípio, o começo do desejo, esse horizonte, esse futuro que toca o meu presente e o meu passado, ou seja, ele me modifica de um jeito, ele me estimula e me instiga a continuar a mim mesmo, segundo uma capacidade de variar ou incorporar o contexto – que me desviaria dos meus propósitos, digamos assim – apesar dos desvios ele me instiga a continuar, a criar uma continuidade intensiva, não uma continuidade extensiva. Então, essa continuidade intensiva de mim mesmo depende da capacidade de eu criar linguagem, de criar movimento no corpo ou de usar os afetos, que é aquilo que me acontece através do uso da linguagem, do uso da sensibilidade. Então, eu me sirvo desses afetos de um jeito tal que aquilo que não me mata me deixa mais forte. Ao invés de ficar lamentando o que me acontece, eu aproveito até o que de pior me acontece…Ou o que de melhor me acontece. Às vezes é até mais interessante que o pior me aconteça do que o melhor, porque a gente é muito mais enganado pelo suposto ‘melhor’, porque a gente acaba ficando mais fraco. Como diz o Nietzsche, a gente é ‘vencido pela própria vitória’. A gente relaxa quando vence. Porque? Porque não tinha nenhum lugar a se chegar! Não existe um objetivo. O objetivo ou a finalidade é uma ilusão, assim como a origem é uma ilusão. Na verdade, sempre tem um devir, ou seja, a vida existe…Ao existir, a potência em ato – o ato é o existir da potência, do desejo – esse ato de existir, se tem um sentido – e é claro que tem um sentido, mas o sentido não é intencional, ele é intensivo, ou seja, ele se volta sobre você mesmo, sobre a tua essência, sobre o teu desejo, a sua potência, te modifica e gera mais realidade, ou gera eternidade na existência. Então, se tem um sentido, o sentido é esse. Na verdade, o sentido é sempre, no mínimo, duplo; no mínimo ele é aparentemente paradoxal. Porque ele vai sempre em direção ao futuro e ao passado, ao mesmo tempo. Na medida em que eu avanço, algo se passa sobre mim e sobre o meu passado; na medida em que eu vou em direção ao fora, um dentro se dobra em mim, mais dobras acontecem; na medida em que eu me desdobro, outras dobras se criam; na medida em que eu me explico, há várias outras implicações. Então a explicação e a implicação, a dobra e a desdobra, a expansão e a contração, o envolvimento e o desenvolvimento, enfim o dentro e o fora… são os dois sentidos que acontecem ou que devêm ao mesmo tempo. Não é que eu sou um e outro ao mesmo tempo, é que eu me torno um e outro ao mesmo tempo. É esse tornar-se, esse devir que vai nos dois sentidos ao mesmo tempo. Então o sentido, na verdade, é criação de tensão e não ir em busca de um objetivo verdadeiro, atingir uma forma ideal. Não tem nada a ver com ideal, tem a ver com tensão, com intensificação, com modificação de si, com criação de zonas de variação. E isso tudo implica um abrir mão das formas, das figuras no corpo e das formas na linguagem. Porque, na verdade, a forma só serve como meio de tecer novas linhas… Linhas sim, linhas abertas, mas nunca a forma que se fecha. O que é a linha aberta? Não é aquela linha efêmera, que me leva a qualquer lugar de modo espontaneísta. Há um rigor aí no espontâneo, que não tem nada a ver com espontaneísta. E esse rigor cria as linhas de variação, na medida em que a linha de variação faz com o desejo cresça e se intensifique. É esse o sentido ativo. Aqui tem um sentido ativo, porque ele faz o desejo crescer, faz a potência crescer. Não é simplesmente um desenvolvimento em direção a uma forma ideal, ao meu destino, meu carma… Esse mito da felicidade que o homem moderno inventou.

Nathalia – Eu queria que você falasse um pouco sobre o desejo enquanto ‘agenciamento’. Quando Deleuze diz que nunca se deseja algo abstrato, algo idealizado, como ‘eu desejo o amor’ etc, todo desejo invoca sempre um conjunto de situações…Você poderia falar um pouco sobre isso?

Fuganti – O desejo é um agenciamento porque, antes de tudo, ele não é de um indivíduo ou de um sujeito. O indivíduo e o sujeito já são resultados em nós e eles não desejam um objeto. Deleuze diz que o desejo deseja um conjunto e nunca um objeto. E esse conjunto já é um coletivo, já tem mil implicações. Quando você ama um corpo ou a uma pessoa, já tem mil coisas junto com esse corpo, com essa pessoa, seu modo de vida, suas relações, seus entornos, seus gostos, seus desgostos…

Nathalia – Que seriam as várias dobras?

Fuganti – Que são mil elementos que entram ali, são multiplicidades…O desejo não ama um objeto unitário, ele ama um conjunto de multiplicidades. E é esse conjunto de multipilicidades misterioso que quer se desdobrar em mim, ou que quer se modificar em mim ou me fazer me modificar, diferir de mim mesmo. É por isso que eu amo. Eu não amo porque eu acho que aquele amor é ideal. O amor, no fundo, é muito interesseiro. Quer dizer, o desejo tem interesse em se fazer intenso. O agenciamento tem um aspecto que é sempre concreto. Essa concretude do agenciamento é como uma máquina que funciona. Ele se compõe de um jeito tal, há um acontecimento, sem o qual não há agenciamento. E o que é esse acontecimento? É um horizonte comum, uma zona comum de encontro, mas que para cada um é uma coisa completamente diferente. E há uma imagem que Deleuze mesmo dá, que é a relação entre a orquídea e a abelha: o devir orquídea da abelha e o devir abelha da orquídea. E um devir não tem nada a ver com o outro. Um é do reino animal e outro é do reino vegetal, uma coisa não tem nada a ver com a outra! Eu não amo o outro, não quero ser o outro! Quer dizer, esse amor humano, que é ridículo, que ‘ama o outro’, que se apodera de uma forma do outro, que quer preservar a si de modo narcísico… Esse amor é um amor de carência, que implica um não-trabalho sobre si mesmo. O amor, na verdade, é um horizonte, uma superfície que não existia sem esse encontro. Então ela emerge naquele encontro e, partir dessa superfície, aí sim, é como um território, uma terra fértil, onde mil coisas emergem, que se desenvolvem e se desdobram. E que você não sabe de antemão, é por isso que é o amor. Mas, ao mesmo tempo, funciona. E realmente cresce, é uma terra fértil. Mas o acontecimento que acontece a um e que acontece ao outro é totalmente diferente. No entanto, eles não são incomunicáveis, ao contrário, eles se comunicam na diferenciação de si. Eu só me comunico com o outro porque eu me diferencio no sentido interessante de intensificação. E o outro só se comunica comigo no sentido interessante, senão é esse amor capenga e passional.

Nathalia – Interessante no sentido da potência…

Fuganti – Claro! Porque, na verdade, a gente não quer o poder, só os fracos querem o poder. A gente quer a força suficiente para não precisar de poder, que aí a gente é generoso, a gente é criador, a gente é ‘capaz de’. Não precisa de parasitagem, não precisa se submeter, não precisa oprimir, né? É uma conquista por excesso de força, por excedente, por força de criar e não por vontade de se apropriar do outro. Então, de fato, funciona. Aí seria, sem dúvida, um amor ativo. Então o agenciamento sempre implica um acontecimento, essa zona de encontro. E, na medida em que essa zona de encontro se dá, você tem o ato que agencia. Esse é o primeiro ato. Mas esse ato se desdobra em mil outros. E esse ato vai lançar mão de vários dispositivos, ou meios de efetuação. Primeiro meio de efetuação em que a gente está inserido é o corpo. O corpo se efetua. O corpo respira, o corpo vê, ouve, sente, ele se efetua. Assim como o desejo, que se efetua através do corpo, se efetua através da mente e da linguagem, da semiótica, dos elementos incorporais, não só corpóreos. Os elementos incorporais se efetuam também. Então, nessa mesma medida, esse acontecimento desencadeia mil materializações, mil atualizações do agenciamento, via semiótica (que é essa zona incorporal) ou via movimento (que é a zona do corpo). Então ele cria movimentos, ele cria corpo para si e cria uma corporificação, uma territorialização corpórea. Assim como cria zonas semióticas pra si. Mentes, ele cria mentes. Cria cérebro também. E cria zonas incorporais que são territórios existenciais. Então ele vai, na verdade, inventando linhas. Linhas de acontecimento e de continuidade de si mesmo. Porque o desejo dele é de continuar se expandindo e se intensificando. Isso seria um horizonte ativo do agenciamento. O agenciamento, na verdade, tal como Deleuze o concebeu, é sempre uma coisa complexa. Por que ele tem uma parte abstrata e uma parte concreta. A abstrata é uma parte intensiva, que não tem forma. Digamos assim, a zona não atualizada, é a zona virtual do agenciamento. E a parte concreta é essa linha de atualização da zona virtual. Então há uma coexistência entre o virtual e o atual. O desejo sempre funciona por agenciamento, na medida em que não há um sujeito que deseje e não há um objeto no fim. Pois ele já começa num horizonte que é múltiplo e ele faz com que essa zona virtual de mim mesmo se produza a si mesma como zona virtual e difira cada vez mais de si. E aqui tem não mais um coletivo, mas uma singularidade que se faz, que se produz na existência. Então há uma produção singular de eternidade na existência, na medida em que há um acontecimento coletivo que volta pra essa zona singular de mim mesmo, essa zona abstrata. Então, na verdade, é isso…O campo da existência não é um campo simplesmente de realização de uma natureza pronta. O campo da existência é o próprio campo onde a eternidade se fabrica a si mesma. Há uma produção de eternidade. É por isso que aí Deus vira uma ficção, né. Porque Deus é aqui e agora. A natureza é aqui agora. A natureza é sagrada, desse ponto de vista. O acontecimento é sagrado, desse ponto de vista… Sagrado, enfim, isso se a gente ainda quiser usar esses nomes, ou brincar com esses nomes. Mas, sobretudo, ele é extraordinário.

Nathalia – É como diz Clarice Lispector: ‘a natureza é sobrenatural’. Ou seja, não há por que procurar nada além…

Fuganti – É. Ela já é além de si mesma, já se ultrapassa a si mesma. É isso.

Nathalia – Puxa, acho que estamos bem de DESEJO.

Fuganti – Então, só pra finalizar: do ponto de vista ativo, jamais a carência. O desejo não deseja um objeto e nem começa num sujeito. O desejo começa num acontecimento de mim mesmo, ou na periferia de mim mesmo e necessariamente me preenche. Quer dizer, o efeito dele é um acontecimento da potência, ou dele mesmo, uma modificação dele mesmo…Então o preenchimento do desejo, o objeto do desejo é a própria modificação dele mesmo. É isso que é. É isso que os psicanalistas não entendem, que os filósofos não entendem, os metafísicos, os padres, os moralistas, os crentes não entendem. Porque o preenchimento do desejo é a modificação dele: ele se preenche necessariamente, então ao desejo não falta nada! Isso é Espinozismo puro! Espinoza foi o primeiro grande afirmador da natureza! Não falta nada na natureza! Ao cego não falta a visão! Quem vê o cara como cego é o pobre que acha que a visão que ele tem é um imperativo, sem o qual o outro cara não existe. Pô, mais ele existe de outras maneiras! A visão não pertence a ele, ele tem outras coisas! Então ao cego não falta a visão.

Nathalia – Que incrível isso…

Fuganti – É…ao desejo não falta nada. É que o juízo humano foi inventado para sempre analisar as coisas por baixo, rebaixando, vendo sob o ponto de vista do que não tem, do que falta. E o que falta? Falta, ao tipo impotente, que o mundo se adapte a ele, sirva a ele! Porque ele passivo, ele não cria nada, ele precisa que o mundo ame ele, cuide dele, paparique ele, faça tudo por ele! Então é a visão do homem reativo, do homem passivo, que sempre inventa essas mistificações e infelicidades.

Nathalia – As paixões tristes.

Fuganti – Sem dúvida! Ele vive disso. Aliás, as paixões tristes têm sempre aí um triplo aspecto: daquele que as sofre, o escravo; daquele se aproveita delas de modo material, o tirano; e o padre, que se aproveita de modo espiritual. Você vê o Papa aí agora, essa palhaçada da Igreja Católica. Quer dizer, palhaçada não, funciona tudo muito bem, tá tudo certo…E as pessoas se merecem.

(riso geral)

Continuar lendo:

S de SUSTENTABILIDADE

E ou É

I de IMANÊNCIA

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Um comentário em “D de DESEJO

    Rafael Trindade disse:
    4 de setembro de 2013 às 09:40

    Republicou isso em Razão Inadequadae comentado:
    Abecedário de Luiz Fuganti

    D de DESEJO

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