O mato

Postado em Atualizado em

Ao se perfurar o piso do quintal para abrir um canteiro de jardim; ao se fazer chegar à tona a terra, nunca se sabe o que dela brotará. Escondidas e latentes sob quilos de concreto, cerâmica e argamassa, jazem raízes e sementes que, de súbito, ao golpe do clarão e do calor, despertam e vêm dar à superfície aquilo que nunca se plantou: o mato. Forças por anos entrevadas na noite da terra cimentada, filamentos e rizomas apenas à espreita. A espera de uma fenda, de uma falha, da mínima fissura sobre a qual incidir e daí se espremer para fora do claustro. Irrompendo da escuridão em explosiva sede de sol, multiplicam-se pelos acidentes do chão, inaugurando o frescor verde vivo no ventre cinza e cindido do solo pavimentado. O mato dá-se assim desembestado à aventura do ar de que fora privado e luta para sobreviver onde quer que se possa achar água, um tanto de sombra e outro claridade. As ervas daninhas e os capins sem raça, vira-latas do paisagismo, essas espécies dos jardins que vingam a qualquer preço e que prosperam se os deixam. Porque tão indesejados? Porque havemos de os rejeitar, arrancando-os impiedosamente do corpo da Terra, se são eles a melhor expressão botânica da afirmação e da vontade de existir? Pudessem se expandir sem limites e recobririam as paredes das casas afogariam as estruturas em um mar de musgo e samabaias, soterrando os edifícios sob o nó dos cipós, abraçados pelas trepadeiras. E engoliriam as cidades que, por fim, tornariam a ser o território das aranhas e formigas, recobrindo de relva toda a face da civilização que sobre ela se ergueu. O mato é aquele que desagrega todas as certezas na certeza das ruínas. Arauto da finitude e dos ciclos perpétuos, mato que renasce nas rachaduras e sobre o cadáver dos séculos. A poesia não cultivada da vida, que insiste em milagrar pelos orifícios do mundo. Que se dê a ela ao menos um espaço livre no interior do canteiro, para que cresça digna. Quiçá, vez por outra, n’alguma manhã murcha e vazia o mato de repente floresça: flores comuns, sortidas, minúsculas… Flores. Arrebentam da sombra, do mato matando todo o tédio do dia.

ilustração mato

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s