As Casas

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I

Chão branco chão

de concreto

Paredes amarelas teto

de madeira chão

de madeira

Verniz

Quebras de linha,

Ladrilho

Lambril brilhante

Um rasgo para o céu: escombros

As paredes azuis, violáceas

Violoncelo

O martelo do relógio imputa violências

À matéria mole…

E dura.

 

II

Teto de vidro muito frágil

Prumo e nível

Equilíbrio

Frágil

As janelas, sempre abertas janelas, sempre cerradas

Vidraças de uma abóbada de cristal: claraboia

E meus olhos inundam-se de luz

Tapetes florais derramando-se

Por corredores e quintais

Vitrais

Ali, um armário embutido

O nicho-cofre em vermelho rubro

Mármore travertino

Alto o pé direito

Ergue-se um mezanino: surgencômodos

Quartos, segredos e escuridões

Entulhos pelos interiores, demolições

Na boca do baú a chave – Silêncio.

 

III

Cadeira à esquerda à direita

Cadeira

Mesa de centro em frente

A lareira acesa

E os cantos cheios de vazio

Aqui um Lá

O Sol invadindo no poente

Raios sobre os pés

E meu corpo dilata-se contra a soleira de pedra

 

IV

Quisera ter todas as portas

Habitar dez mil moradas

Em cada lugar erguer um ovo

Nascer um oco

Nas cidades e nas areias

Nos campos e desertos

Cavernas e castelos

Cálices e cais

De muitas formas provar

A substância do viver

A verter no átrio poroso

Da casa

Corpo tapete

Dorso

 

V

Semente

Projeto de ventres e vigas

Para muitos eus

Eus de tijolos e de palha

Eus de pau-a-pique

Adobe, vidro e metal

Ruínas futuristas

Cook top e forno à lenha

Fogueira de uma só chaleira

Improviso de uma noite

Apenas

Buraco cavado nas encostas

Troncha de galhos presa às copas

Apenas

Ninho de barro atado ao tronco

Na Amazônia, Sertão

Ladeiras de Lisboa ou Rio

Algures

Bebendo junto às aves

Da seiva ao meio-fio

 

Migraria de casa em casa

A me refazer sempre

E em cada pouso

                    (em cada pausa)

Saborear outro gosto de calma

Ganhar contornos de aço

Um novo traço!

Mas ser também só alma – porque não?

Perder pele, perder peso

E fundação

Só para de novo poder sentir

A alegria de regressar

– outra vez e outra

À bacia sanguínea

Da carne pulsante e quente

Ao músculo que injeta a vida

Sobre a matéria inerte:

O coração

Forno cor de beterraba

Útero sacro

Mar

Forma mais pura e acabada

Do saudoso, antiquíssimo

Lar.

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