Dissecando o medo

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“O bombeamento gera a pressão que organiza os espaços do corpo para manter sua integridade estrutural. Essa pressão também reflete um estado interno e gera sentimentos que reconhecemos como nossos.”

Stanley  Keleman

Em todas as aulas de canto nós passamos (em algum momento ou o tempo inteiro!) pela sensação de MEDO. O verdadeiro nerrrrvo de cantar no centro da borda é nosso tema eterno…Então senti vontade de investigar o que é isso que nós chamamos de medo e como podemos trazer mais consciência para esse estado.

Comecei me perguntando sobre as sensações e os movimentos internos do meu organismo, essas manifestações que minha pobre linguagem traduz como medo. A que qualidades de sensação fisiológica eu dou o nome de MEDO? Qual a geometria dessa emoção em meu corpo, com que tipo de comportamento as minhas camadas e estruturas expressam isso?

Se pensar bem, essas manifestações de palpitação, suor, pulso acelerado, agitação nervosa, dor de barriga etc são apenas padrões de vibração física que podemos aprender a identificar, mapear e encontrar formas de canalizar esses fluxos para tornar esses movimentos mais administráveis pela estrutura.

Há um desafio: sustentar a presença. Posso descobrir que o simples fato de suportar minha corporalidade numa situação onde estou sendo observado, suportar o fato de que todos os focos estão sobre mim exige um tônus ou um certo tipo de estrutura que dê conta dos bombeamentos internos que estão sendo detonados naquele momento. Então temo por essa intensificação de minhas pulsações…pois cantar diante de um público é uma situação esmagadora! O espaço parece crescer em torno de mim exigindo uma resposta, pedindo que meu organismo produza uma tensão contrária. E essa resposta fisiológica vem a ser justamente a tal da liberação de adrenalina, a intensificação das pulsações que aceleram os batimentos, fazem tremer as pernas, suarem as mãos – ou seja, tudo isto que nós resumimos em ‘medo’.

Então, ao dar o nome de medo a essas agitações que surgem pra nos ajudar a ativar nossa presença, nós desperdiçamos a incrível oportunidade de construir tecido e tônus de modo a fazer frente à opressão do entorno. O bombeamento dos fluxos vitais seria justamente nossa melhor resposta orgânica para nos ajudar a expandir nosso campo, a ‘empurrar’ o espaço, fazer oposição, fortalecer nossa PRESENÇA e nos fazer sentir vivos.

O espaço nos impele ao agir, nos força a interferir, a movermo-nos nele a fim de sobreviver e construir nossa existência. É uma relação problemática essa que há entre os seres e o meio – e graças a Deus é assim! Porque exige que criemos tônus para sustentar nossas bordas, para ir em busca de soluções, encontrar novos caminhos e desenvolver novos potenciais movidos unicamente pela necessidade. Prazer e conforto não nos põem em movimento, pois são instantes de permanência e de relaxamento em que nos deixamos estar à vontade. Já o jogo de tensões impõe a formação de paredes, câmaras, bordas… Em uma palavra: FORMA. Do ponto de vista orgânico, se não existissem tensões, atritos, crises, necessidades e problemáticas seríamos seres amorfos…Talvez jamais passado da vida unicelular!

Mas acontece que essa forte agitação que vem das nossas camadas viscerais quando estamos lá no centro da roda cantando nos dá muito medo. Por que?

É que o corpo teme por sua integridade física. Ele pensa “e se eu vazar? E se minhas vísceras saírem para fora e eu me desintegrar?”. Esse é um medo muito primitivo. Dizem que os bebês brincam com suas fezes como uma forma de assimilar o fato de algo sair de dentro deles, para não serem dominados pelo pavor de que seus conteúdos internos venham para fora, se espalhem!

Essa parece ser uma possível origem para o pânico. O medo da perda do contorno, que no fundo é o medo da morte. Inconscientemente, tememos pela preservação de nossa estrutura, ameaçada pela excitação dos fluxos internos. Estes, por sua vez, foram detonados por forças vindas de fora. Sinto medo, pois não tenho certeza se minha estrutura dará conta de suportar essas intensidades.

O melhor que fazemos então é começar a dar a esse estado o nome certo. Chamar tudo isso que sentimos de ‘pulsações’, de ‘bombeamentos orgânicos’, de ‘intensificação dos fluxos’…Ou simplesmente de ATIVAÇÃO DA POTÊNCIA. Podemos aceitar a secreta obviedade de que somos um corpo. Olha só, somos um CORPO! Grandissísima novidade! E este corpo se expressa dessa forma quando se sente ameaçado pelo espaço.

Qual o antídoto para que o espaço, a vida, o mundo, a terra, a sociedade, a família, a morte não sejam coisas tão grandes e opressivas que acabem me tirando toda a potência do agir e do viver, terminando por me engolir?

Resposta: convocar nossas estruturas para criar CRIAR TÔNUS, tecer musculaturas e ossatura, usando meus braços e mãos para empurrar esse espaço, para modelar minha presença e me ajudar a DANÇAR nessa maré de tensões. Modular a ansiedade do agir pelo ato de ouvir, drenando o nervosismo pela expansão da escuta. Temos de exercitar a reafirmação da presença, estabelecendo nosso território e tonificando o corpo, pois só assim é possível alguma comunicação entre este corpo e o outro.

Porque se não aceitarmos tudo isso que é o organismo, essa maravilha que é a expressividade e o potencial criador de nossos tecidos, em nossa infinita produção de nós mesmos, nunca aprenderemos verdadeiramente sobre o que é viver. E é só na condição de SERES VIVOS que realmente poderemos CANTAR.

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Um comentário em “Dissecando o medo

    Carla disse:
    24 de fevereiro de 2013 às 20:59

    Ná! Agradeço. Muito melhor assim, o medo corporificado e, nós vivos! Cantando.

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