vontade de nada

Postado em Atualizado em

Não é o medo do nada que nos apavora. É o medo do nadismo. Medo de não querer nada. De que, no fundo, não se quer fazer nada…de que livre das pressões e da necessidade de sobrevivência, da manutenção da casa, da família, dos compromissos etc, de que se nada houvesse que me chamasse à ação eu nada faria, nada quereria…Me entregaria ao abismo do nada.

Mas esse medo é infundado, porque o ‘nada’ não existe, de fato. Existe a falta de pulsação, de ondas que impulsionem o ser, de fluxos que movimentem e gerem campos de ação, existe a perda de potência…Morte.

E como não morrer? Como não sucumbir aos momentos de queda, de perda de potência, disso que a gente chama de ‘vazio’? Como não desmoronar quando a onda da vida recua e desce às profundezas?

Hum, aí é que está. Nossa cultura não sabe o que fazer com o corpo da perda dos sentidos, da falta de orientação, da vertigem, da ruptura e da solidão. Toma-se anti-depressivo, ansiolítico…Mas não se produz corpo a partir dessa passagem pela desagregação, não se trabalha desde a reconfiguração dos tecidos e dos pulsares que, por alguma razão, se desajustaram mas que podem tornar a bombear a presença perdida.

Pode ser que aquele corpo esteja experimentando, pela primeira vez, uma contração…Um corpo que sempre foi ‘alegre’, festivo, contente, serelepe…Superficial? Vulnerável? Meio bobo? Alegrinho?

E agora uma contração, uma instrospecção, uma melancolia…Dor. Nossa cultura não tece corpo a partir da dor, quer fugir dela por vários mecanismos. Mas que riquezas se reúnem aí, nesse espaço contraído, que desagregou-se e agora precisa voltar-se para si mesmo, sentir sua própria pulsação, encontrar uma nova conformação.

Bombear, circular, pulsar, retomar o funcionamento orgânico que naturalmente expande e contrai…Contrai o ser em si mesmo, recolhe o espaço, configura um espaço íntimo; e então expande o ser em direção ao mundo, gera um campo de ações, configura um ambiente, um nicho…corpo e espaço em dinâmico e incessante ajustamento e produção mútua, em que o dentro e o fora se interpenetram e criam relações mediadas pelos gestos, pelas ações.

E assim se dá a construção do viver: uma tarefa que exige tônus, sim, é verdade. Mas não há algo como um nada que me ameaça…Há expansão e recolhimento, intensidades que querem expressar-se e precisam de canais para dar passagem a esses fluxos que animam o ser. Ânima – alma – respiração.

Não há o nada. O que há é uma sociedade que não está instrumentalizada para o orgânico e o funcional, mas sim para o bombardeamento de imagens de sucesso e de felicidade; as quais, adentrando em nosso espaço subjetivo, nos desafiam a ‘caber’ nelas, a nos identificar com elas, a nos moldar por elas. E, se alguns de nós parecem mais aptos a realizar esse molde por disporem das ferramentas – poder aquisitivo, aparência física ou acesso aos meios de produção do corpo idealizado – outros de nós não se enquadram e ficam excluídos do círculo. Quanto aos fracassados em operar em si mesmos essa adequação às imagens sociais – e os que não suportam submeter-se a elas – surge o risco de sucumbir na desorientação, na ausência de imagens estruturantes para si, concebidas desde si. Aí o Nada, a morte da subjetividade.

Por sorte, o mundo ficou mais largo com o acesso à informação. As propostas que trabalham nessa reintegração ficaram mais diversificadas…São tantas técnicas, tantos caminhos. Se o indivíduo persistir nesse pulsar que sustém a própria vida psíquica e emocional, se não desistir de buscar, de ir ao encontro dos fios para tecer sua trajetória então, eventualmente, poderá encontrar as ferramentas de que necessita. Encontrar instrumentos para construir sua presença, sua vida…E isso é necessário para uma existência sadia.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s