Entrevista com Johannes Freiberg

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Pelas bordas do corpo… Muitas peles

Chego ao consultório do meu caro amigo (e ex-terapeuta) Johannes Freiberg, em Perdizes. Recebendo-me à porta de sua confortável sala, de inspiração oriental, o rolfista e instrutor de Karatê imediatamente me indica o olhar na direção de um objeto: era um acordeon, ainda aberto e deitado sobre sua maca de atendimento. Via-se nitidamente que ele acabara de ser tocado e, disposto ali no instante em que cheguei, parecia agora descansar. Com um ligeiro ar pueril, Johannes me conta entusiasmado: “Ganhei de aniversário!”.

Descendente de alemães,  herdeiro de uma vigorosa estrutura e de imponentes dois metros de altura, Johannes Freiberg é uma figura que impressiona. Um certo aspecto de severidade ou sisudez que senti a primeira vez que o vi, logo porém se desvaneceu, quando a interação deu lugar a outras imagens e sensações. Sua expressão é toda suave e gentil. Seus modos calmos, firmes e econômicos, revelando aspectos de uma identidade forjada na influência da cultura japonesa: gestualidade limpa e delicada, sem afetações.

Johannes está discretamente radiante com o acordeon – e eu, que vinha reatando uma relação antes muito dolorida com o violoncelo, só conseguia pensar nesse árduo diálogo que se busca entre o corpo do instrumento e o do instrumentista: um lento e prodigioso processo de automodelagem que pretende, como resultado, a expressão sonora… A música emanada do corpo. E foi nessa toada, inspirados pela sinfonia dos corpos em seus desafios de convívio com outros corpos, na formação de si dentro do ambiente social, que começamos nossa entrevista.

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Nathalia – Já que começamos a falar sobre instrumentos musicais, vamos aproveitar o mote. Você fez uma introdução à função da ‘fáscia’ no Seminário da Biodiversidade Subjetiva (conduzido pela filósofa e terapeuta Regina Favre), propondo que trabalhássemos com a ideia do tecido conjuntivo como um elemento que conecta. Em seguida, nós demos as mãos uns aos outros e experimentamos nos sentir como um ‘tecido só’…

Johannes – Sim, trata-se de como você vai formando o ‘ambiente’. Porque é a partir de uma certa ligação que se forma o ambiente. E, nesse caso, as pulsações individuais vêm para se regularizar, permitindo criar um ritmo coletivo a partir da aproximação dos corpos. Essa situação de darmos as mãos em roda é algo que, de alguma forma, cria uma certa estabilidade dando um contorno pra gente. É essa coisa do tecido fascial, que não é só uma ‘gelatina branca’. É ele que possibilita a existência da célula. A membrana celular, por si só, não seria suficiente para garantir que a célula exista. Ou seja, sem que haja um ‘ambiente’ – ou um ‘fora’ – a célula não dá conta de conter o que está dentro e tampouco é capaz de resistir completamente ao fora. Então, não é que o tecido fascial ‘envolve’ a célula. Na verdade, ele é o próprio meio ambiente onde a célula vai viver.

 Nathalia – E que torna ela possível.

 Johannes – Sim. E aí ela pulsa, ela tem movimento, tem uma formação, uma atividade… É viva, né.

 Nathalia – E o que foi interessante é que, naquele momento, nós éramos como a célula experimentando esse ‘contorno’, essa relação com o ambiente e de como ele nos envolve…

Johannes – A percepção de como aquilo forma um ‘campo’. Um campo se forma de muitos modos, mas na conexão direta ele se forma e se estabiliza, porque os corpos se colam mesmo. Eles se põem juntos, dão a unidade… Aquilo estabiliza, por um tempo, um conjunto de pessoas, de lugares ou pulsações da vida que ali encontram uma contenção para todas essas estruturas simultaneamente, formando uma pulsação local. Então aquilo adquire um centro e começa a pulsar. E os corpos começam a experimentar o próprio pulso também. Então, a fáscia recorta e, ao mesmo tempo, junta. Ao recortar ela diferencia um do outro. Quer dizer, isso que a gente chama de pele e que, embaixo dela, tem a fáscia, é o que dá o recorte. Então esse desenho do dedo é um desenho fascial. Se não houvesse a fáscia, o dedo não pararia de crescer. Ela dá o contorno que estabiliza uma certa tensão.

Nathalia – Cria limites…

Johannes – Ela dá a borda, dá o limite, desenha… Estabelece o design.

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Nathalia – Bem, a gente segurou as mãos e depois, ao soltarmos, eu tive a sensação de estar mais ‘plugada’ ao ambiente e às pessoas… A própria visualização das pessoas me pareceu mais nítida. Então, partindo disso, eu procurei levar esse foco aos meus estudos de violoncelo, pensando nessa relação da minha pele com a pele do instrumento. Porque eu sentia uma dificuldade em me fundir com o instrumento. Para além da mera repetição, senti necessidade de vivenciar um encontro com o cello, de experimentá-lo como uma extensão do meu próprio corpo, conectando os tecidos…

Johannes – Há uma qualidade conectiva em nós, que está aí desde sempre…

Nathalia – Ela é biológica, né?!

 Johannes – Isso, ela é constitutiva. Mas o que pode acontecer é que a gente fique com pouca qualidade conectiva, na medida em que a gente não ‘elabora’, digamos, essa diferença entre o que é você e o que é o outro. Não como uma separação, mas como uma distinção. É aí que está o truque. Então, quando eu digo que a fáscia separa e junta, quero dizer que ela mantém toda a unidade no corpo ao mesmo tempo em que ela diz que deste lado fica o coração, aqui o pulmão, aqui o fígado etc… E aqui fico ‘eu célula’. Ou seja, a distinção chega ao nível celular. E as células se conectam por fios de colágeno e se tensionam uma a outra. Não há células soltas no corpo, flutuando. Elas estão conectadas de alguma forma por fibras, fios… E elas, então, mantêm um diálogo permanente entre uma célula e outra nisso que nós chamamos de vizinhança. Essa vizinhança é feita por contato direto e o tecido fascial é esse lugar que media e informa onde cada coisa está no ambiente. Então ele vai moldando, recortando e, ao mesmo tempo, vai dando unidade, porque distingue, mas mantém. Essa figura que é móvel e que tem uma conexão, mas que não é um grude, algo que se mistura e se confunde. Pelo contrário, ela recorta. Então, a fáscia também dá a tensão necessária para aquela célula poder viver. A fáscia é um meio ambiente, um organizador das espacialidades e do lugar onde cada coisa passará a existir. Pensando nesse seu assunto com o violoncelo, como é que você vai experimentar essa conectividade com ele? Você se endereça a ele, nisso que a gente chama de atividade háptica. Quer dizer, nós temos as mãos, os olhos e a boca que são conectores de ambiente. A gente faz isso em direção ao ambiente, porque nós temos essa potência de ligar. Mas eu posso estar aqui e estar completamente retraído, ou seja diminuindo minha possibilidade de encaixe e minha superfície de contato… Ou eu também posso ficar tão mole e frágil que acabo me misturando e já não sou capaz de fazer qualquer diferenciação. Então, qual é o nosso jogo? É manter uma tensão na qual você vai em direção ao encontro mas, ao mesmo tempo, você mantém a inteireza do tecido: e aí acontece um contato entre os tecidos estabelecendo uma relação.

 Nathalia – Aí acontece o encontro, não a mistura.

Johannes – Isso! E isso faz uma baita diferença numa situação como essa que é tocar um instrumento, por exemplo. Quer dizer, você pode experimentar como se o cello tivesse dois braços; ou como se no seu corpo houvesse um cello que se mexesse e fizesse parte de você. Essa é a conversa…

Nathalia – Exatamente, foi isso que eu comecei a investigar… E mudou completamente a relação. Tentei trabalhar com a ideia do contato entre o tecido da madeira e a minha pele. Decidi abolir o espigão que apoiava o cello no solo, para sustentá-lo apenas com o corpo, abraçando-o entre as pernas e senti que isso me trouxe mais para o contato… Me trouxe para o jogo! Então, a partir dessa informação dos tecidos, senti que afinei melhor minha comunicação com o instrumento. E é isso que eu queria entender melhor… O que foi que eu fiz?

Johannes – Então, tem uma coisa que se chama atividade ‘fórica’. O que quer dizer isso? É a ideia de ‘fórum’ mesmo, ou seja, uma participação de muitos eventos acontecendo o tempo todo e ao mesmo tempo, dentro dos quais a gente distingue para onde nossa atenção será dirigida. Eu estou aqui com você, mas estou percebendo mil coisas do ambiente… Uma série de informações que chegam e que eu vou selecionando. Essa seleção é que me faz, então, deslocar todo um design de mim em direção a alguma coisa e então eu faço um contato. Eu posso estar aqui sentado e de repente decidir estar mais atento à minha mão. Ou seja, eu faço um recorte nas minhas atividades, via essa coisa do ‘estado fórico’, que é a possibilidade de captação do ambiente. Nós estamos captando o tempo todo, via olhos, ouvido, equilíbrio… O tempo inteiro estamos captando, escolhendo e, depois, indo, captando, escolhendo etc…

Nathalia – Como a medusa nadando no oceano…

 Johannes – Isso… Só que a medusa pulsa. Ela direciona o movimento dela. Ela capta e fala ‘vou pra lá’, capta e fala ‘vou pra cá’. Então ela começa a se organizar dentro do ambiente, movendo-se dentro dos ambientes. É como se ela pegasse os fluxos e os orientasse. Ela forma uma estrutura que canaliza as forças numa certa direção, num certo sentido e daí ela modula. Essa modulação é a força com que o movimento irá sair… Que é a tal da intensidade. Então, a qualidade do contato depende de eu estar escolhendo também a direção. Quer dizer, eu estou indo em direção a alguma coisa, envolvendo a modulação do corpo, mobilizando meu tecido conjuntivo etc… Então, aí de fato estou vivendo a experiência de estar com aquele instrumento. É mega interessante. Diferente de eu ficar apenas pensando na técnica, por exemplo. É importante, claro, mas não necessariamente a técnica me faz fazer contato realmente com o instrumento. Ela me põe em contato com meus dedos e com as imagens musicais. É fundamental, porque sem isso eu não posso modular. No entanto, a modulação é, ela mesma, o ‘toque’. É diferente de você dizer ‘vou posicionar os dedos assim e vai sair a nota Do’… Isso é uma coisa. A outra é perceber que, ao organizar os dedos assim, gera-se, a partir deste encontro, uma certa sonoridade. E isso muda tudo.

Nathalia – Muda a qualidade do som que se produz.

Johannes – Sim, daí começa isso que será a qualidade do contato. E a possibilidade da gente modular passa pela questão do tecido fascial. A fascia é que tem essa plasticidade de gel, de poder ir caminhando e depois tensionar, firmar e pronto: criar uma ordem no movimento. Então, ela não é só motora ou neuromotora. O assunto aqui passa pela sensação do corpo, porque essa sensação tem a ver com o tecido fascial. Uma boa parte da noção que eu tenho de estar aqui me mexendo passa pela atividade da fáscia, porque elas se deslizam uma sobre a outra dando-nos o reconhecimento de que há um movimento acontecendo por dentro. Há toda uma combinação de deslizamentos que vão informando para mim mesmo os acontecimentos que estão se desenrolando. Daí eu posso ficar, realmente, em contato com aquilo em direção ao qual eu me movo.

 Nathalia – E que é a tal da propriocepção…

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Johannes – A tal da ‘propriocepção’… Que não é uma ‘coisa’ e nem está localizada em parte alguma. A propriocepção é um acontecimento! É diferente de dizer ‘ah, eu tenho propriocepção no pé’. Não, não é isso. Para que haja propriocepção é necessário um acontecimento, porque ela só dá na ação.

 Nathalia – Assim como a ‘presença’ não é uma coisa abstrata…

Johannes – Isso! Você não pode falar ‘ah, eu estou presente’. A presença é o acontecimento se dando e eu ali me configurando dentro dele. A presença não é um fato.

Nathalia – É uma atualização da percepção de si.

Johannes – Exato, é uma atualização, nesse sentido. E isso é importante. Porque não existe dizer que se tem ou não se tem propriocepção. O que existe é um evento que gera uma informação interna.

Nathalia – São provocações, estímulos que produzem respostas e reverberações.

 Johannes – Sim, são estímulos dos tecidos…

Nathalia – A fáscia está relacionada com o sistema nervoso? De que forma acontece essa transmissão da informação pelo corpo?

Johannes – A fáscia, num certo sentido, independe do sistema nervoso diretamente para gerar informação dentro dela. Ela tem capacidade de mover-se sobre si mesma, meio que autonomamente. Mas a informação proprioceptiva, na hora em que você está se deslocando e que, portanto, ocorre uma tensão fascial, ela sobe para o sistema nervoso e então você tem um aparato de recepção disso. Agora, a fáscia independe do sistema neuromuscular. Por exemplo, se você subir nessa cadeira e saltar para o chão, isso não é neuromotor… A fáscia sozinha responde. Ou, no caso de certas atividades em que se utilizam movimentos tão rápidos que não há como você criar respostas neuromotoras para desempenhá-los. Não dá tempo daquilo subir para o córtex e descer. A fáscia se encarrega.

Nathalia – É nisso que eu fico pensando… No caso do estudo do instrumento, ou da voz quando cantamos… Há cálculos muito complexos que são feitos tão velozmente que parecem estar num tempo muito além daquele necessário à transmissão neuromotora.

Johannes – Então, eu estou propondo um trabalho dentro das atividades esportivas, no qual você pode experimentar apenas ficar dentro do seu tecido fascial direto e encontrar os movimentos dentro dele. Você pode experimentar com a voz, por exemplo, a partir de algum tipo de movimento, estimular o tecido fascial de forma que ele entre em jogo… Que ele entre junto na modulação da voz.

Nathalia – E qual é o resultado qualitativo disso?

 Johannes – O resultado é que os tecidos ficam mais elásticos, se mobilizam de forma mais flexível, então a amplitude aumenta. Por exemplo, para uma pessoa que corre, o tecido ganha um aumento de pulsação, a resposta aumenta muito…

 Nathalia – Então, o movimento torna-se mais saudável.

Johannes – Muito mais saudável. Falando apenas em termos de fisiologia, se a fáscia fica ressecada, ela vai se colando e perdendo função de informação. Na medida em que há elasticidade, entra água nos tecidos, eles ficam hidratados, ficam elásticos e, com isso, eles começam a recolocar sais minerais e outros tipos de proteínas dentro do tecido e essa elasticidade faz com que o organismo tenha muito mais propriocepção. Ou seja, consciência e resposta de si mesmo no próprio movimento e, com isso, uma organização melhor dos próprios atos.

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Nathalia – Você amplia sua superfície de conectividade com o ambiente.

Johannes – Muito. Aumenta sua capacidade de auto-organização.

Nathalia – Fico pensando na ideia do corpo sem órgãos e toda essa linha de pensamento que elabora o corpo como superfície… Fazendo link com aquilo que você colocou no Seminário a respeito do ‘corpo como superfície’, como contraponto à ideia de que o interior do ser é que interessa, de uma suposta ‘alma’ que estaria alojada na profundidade do ser… Ou seja, por essa outra abordagem, que tem a ver com a fáscia, a história na verdade se dá na superfície, certo?

Johannes – Isso… É porque a superfície nos fala sobre o que está dentro.

Nathalia – Nesse sentido, a ideia é que quanto mais superfície eu tenho, – ou quanto mais eu me desdobro no ambiente – mais interface eu ganho com o espaço?

Johannes – De uma certa maneira, sim. Mas, o que eu coloquei é que a gente fica muito focado na ideia de que é na profundidade que está o acontecimento. Mas, na verdade, falar da superfície como oposição à profundidade é uma conversa que perde o sentido quando você fala em tecido fascial, uma vez que essa camada – e isso se dá em qualquer coisa viva – se projeta pra dentro e pra fora simultaneamente, porque ela é um enredamento. Você imagine que ela é em si uma única folha dobrada, dobrada, dobrada várias vezes e de tal modo que você forma um desenho, uma figura viva… Então a fáscia é toda ela entremeada, ela faz múltiplas dobras, de tal forma que quando você mexe aqui, você mexe com o sistema inteiro. Isso quer dizer que enquanto eu estou mexendo aqui na ‘superfície’, tudo o que é ‘dentro’ também responde. Então a ideia é que, se eu estou aqui em contato com a sua superfície, logo eu também estou em contato com tudo aquilo que é o seu profundo. De outro modo, eu me esqueceria de você, me perderia, ficaria procurando nas imagens e me desligando de você. Então o que está visível e palpável me conta do que vem de lá de dentro. Mas também é verdade que se você toca a superfície, aquilo percorre as camadas e volta. O que é que volta à superfície? Volta o que está dentro. Então, a gente começa a ver que não existe uma distinção entre dentro e fora… E aí o pulso se dá por inteiro.

mão2  Nathalia – Seria como esse exemplo que você deu da folha, que você dobra de tal maneira que forma uma caixa, por exemplo… Forma um oco. Mas o oco só existe porque houve uma dobra da superfície.

 Johannes – É isso… Essa é a tal da dobra do Deleuze. Então quando você tem aquela primeira célula que entra num processo de invaginação, ou seja, em que ela se molda formando um oco em si: o que era ‘fora’ torna-se um ‘dentro’. E depois aquilo vira ‘fora’ de novo… De tal forma que você já não sabe mais o que é dentro ou fora. A pele é a superfície do dentro. Ou seja, a pele é o fora do dentro. É o sistema nervoso, que é dentro e que é fora. Então você já não consegue mais falar em termos do ‘seu mundo de dentro’… Isso é um tipo de construção de subjetividade e de imaginário. Mas no contato do real, a superfície está sempre informando a profundidade. Pra exemplificar um pouco isso, se você pegar uma árvore e cortá-la, você vai ver aqueles anéis de formação, não é? Só que se você observar, o centro do anel conversa com a segunda camada, que também envolve a terceira, que faz a quarta e assim por diante… Então você pode falar sobre o tempo, sobre a duração daquele corpo, mas você não pode falar que o dentro está distante do fora ou que um é independente do outro. No anel dá pra se ter uma boa ideia de como aquilo se irradia para fora. Daí você pega o sistema nervoso, o sistema cardiorrespiratório, os sistemas fasciais e verá que aquilo é tudo enredado.

Nathalia – E o que vem de fora afeta o que está dentro? Ou seja, as novas camadas que vão surgindo modificam as camadas pré-existentes?

Johannes – Sim, é exatamente isso.

Nathalia – E isso, em termos de memória… A fáscia guarda memória?

Johannes – Guarda. A gente pode falar da glia, que é um tecido fascial. Você tem aqui a membrana nervosa e em volta dela está a glia. Ela é possivelmente a memória de longo prazo. O nervo seria de curto prazo. Então a glia é uma especialização do tecido conjuntivo que está relacionado à modulação das intensidades de longo prazo dentro do sistema nervoso, no cérebro. É ela quem leva o neurônio de um canto para outro, ela é que encaminha.

Nathalia – E ela se modifica?

Johannes – Ela se modifica aos poucos. Quando você tem uma estabilização muito grande da fáscia, você tem uma repetição de ações. Se você experimenta um mesmo movimento várias vezes, o sistema fascial pega e envelopa essa ação depois.

Nathalia – E aí você consegue usar isso para aprender a tocar um instrumento, por exemplo…

Johannes – Isso. Entender que aquela posição que você toca não é neuromotora… É fascial também, porque aquilo criou uma certa estabilização da ação.

Nathalia – Que tem a ver com a ideia da modelagem?

Johannes – Sim, você se modela naquele acontecimento.

Nathalia – Pensando nessa conversa entre sistema fascial e sistema nervoso, em nossas memórias dos acontecimentos, nas lembranças de infância… Por meio da mobilização das camadas corporais, atuando nesses padrões que ficaram formatados na fáscia, você consegue também modificar os registros dos passado? Ou melhor, é possível mudar a percepção que se tem das próprias memórias?

Johannes – Você não muda o passado. Mas sim, é possível mexer com as memórias. Há um neurocientista com o qual nós dialogamos muito nessa pesquisa, que se chama Gerald Edelman. Ele vai trabalhar com a questão do passado presentificado. Então, a gente tem certos acontecimentos que se estabilizam enquanto estrutura, na medida em que a intensidade ou a repetição daquela tensão acaba ficando fundamentada no corpo. A memória, nesse sentido, é quando você é capaz de repetir uma mesma ação algumas vezes. Ela não é exatamente linear, mas é estatisticamente muito próxima. Tanto é que você pode tomar água várias vezes com a mão direita, por exemplo. Se você imediatamente esquecesse, você não saberia mais como se pega um copo. Então, algumas memórias ficam arquivadas porque possuem um uso. Se esse uso será bom ou ruim, se ele tem uma função que agrada ou desagrada, pouco importa. O que acontece é que, ao se repetir aquela ação e estabilizá-la enquanto processo, o corpo garante que você saiba executar determinadas outras ações. Como, por exemplo, o ‘beber água’: uma derivação do ato de ‘sugar’. Então, sugar, beber água, segurar um copo… Aí você vai instrumentalizando todo um mundo que se desdobra a partir daquilo que, em nós, já está constituído como base genética. Ao mesmo tempo, quando você se recorda da sua infância, em parte isso se dá a partir do corpo que está aí agora. “Ah, quando eu era pequena eu usava um sapato vermelho”... Ponto. Em seguida, você entra naquele tempo emocional: “Aquele sapato me lembra um tio que eu gostava muito e foi quem me presenteou” – aí pronto, você começa a ter uma série de imagens. E diante delas você, de repente, diz “nossa, aquilo foi tão importante na naquele momento que criou em mim um certo estado de alegria”, por exemplo. Então você gosta de comprar sapatos vermelhos, porque aquilo traz um certo ‘modo’ e isso vai virando dança, virando linguagem, enfim vai se desdobrando em outras coisas. Na medida em que você se recorda daquilo e aquilo começa a se colocar de novo, não é que você irá modificar a estrutura, mas pode-se então provocar um novo encaminhamento dessas forças. E essas coisas em nós, que a gente chama de inconsciente ou sub-inconsciente, é essa repetição de certas estruturas que vão se atualizando muito pouco, mas que vão garantindo uma certa permanência de um padrão de pensamento e de atitude.

Nathalia – Que é o ‘modo default’ de cada um… O modo padrão, de respostas meio que automáticas.

Johannes – É. Exatamente. Então, na medida em que você acessa elas de novo, você pode falar: “Bom, é pra cá que estão caminhando as coisas… Será que eu quero que continue?”. E aí você vai fazer uma pequena interferência sobre isso e provocar uma modificação. Então, na realidade, você não altera o passado: você recoloca ele sob novas tensões. E aquilo passa a ganhar uma pequena variação, que pode reduzir de importância e ir, aos poucos, enfraquecendo no sistema até o ponto de você esquecer. Agora, se essa memória é estruturante… se uma certa intensidade de energia passa por ali e cria suas outras ramificações, aí é como a questão da árvore: naquele ponto você não tem como mexer. É como desmontar o cérebro inteiro. Isso pode até acontecer, mas a chance de você se perder completamente é enorme. É como se você pudesse retornar a um estado de bebê, não existe isso. O que ocorre é que você tem uma base e sobre ela vai se fazendo uma dobra sobre a outra e aí você, a partir de uma modificação no tronco da árvore, pode conseguir modificar o galho.

Nathalia – E no caso de uma agressão muito profunda ainda na tenra idade. Ela pode ficar enraizada de forma irremediável na pessoa?

Johannes – Não é que ela fica enraizada, é que ela é estruturada como comportamento. É possível, de alguma forma, entrar nesse sistema e dar outras respostas…

Nathalia – Seria como ‘ressignificar’ e experiência?

Johannes – Num certo sentido, sim…

Nathalia – Introduzi-la num novo campo de forças.

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Johannes – Sim! Você introduz novas linhas de força, que não vão apagar aquilo como parte de uma vida vivida… Porque isso só o Alzheimer faria, mas aí já estaríamos falando de uma situação drástica. Então, o acontecimento fica como coisa acontecida, mas você pode criar outros ramos pra ele.

Nathalia – Como, por exemplo, eu posso transformar essa minha memória de uma ferida em um tema para um filme, um quadro, uma poesia…

Johannes – Isso… Numa fala, num texto, uma expressão ou mesmo gerando um comportamento que conversa com aquele…

Nathalia – Criando uma linha de fuga…

Johannes – Exato. E aí você passa a ter uma resposta que não tinha antes. Então aquela hiperestrutura fica mais amolecida e permite que outros campos entrem em jogo e aquelas forças todas passam a ter uma possibilidade de novos encaminhamentos. Você pode começar a produzir novas respostas, novos entendimentos, novos modos de atuação. Você talvez tenha ficado mudo naquele momento, mas agora você fala, você consegue ficar bravo… quer dizer, aquelas forças estarão sempre lá, mas de maneira muito menos intensa. Historicamente permeadas de sentido, porque o seu tecido está se montando sobre essa estrutura, suas células estão se produzindo sobre as que já existiam… Nunca vai existir uma ‘célula nova’ no corpo,  totalmente desligada dos eventos preexistentes no organismo. Ela já nasce carregada dessa história. Mas existe uma maleabilidade, porque o sistema nervoso funciona em fluxos. Ele não é uma pedra estável. O agenciamento sobre os próprios fluxos, sobre a própria excitação é que interessa. E isso depende de que aquele imaginário todo ganhe um sentido e você possa recolocar as coisas de forma a dar continuidade à vida,  dar andamento. Em algumas situações, o que pode ocorrer é que o acontecimento possua tamanha intensidade que cria-se ali uma tensão e sobre ela outras camadas se estruturam imobilizando aquele lugar de maneira permanente.

Nathalia – Que é o trauma?

Johannes – Um trauma, por exemplo… Então como é que você desorganiza um trauma? É que aquilo primeiro precisa ser assimilado pelo corpo, do contrário ele fica lá ecoando e sobre ele vão se tecendo histórias sobre histórias. No trabalho de Rolfing é muito comum você mexer num determinado ponto do tecido e aquilo de repente disparar uma memória… E, a partir daquela lembrança, abre-se um horizonte para que outra ordem possa ser colocada. Os músculos não vão mudar, mas ao se liberar o fluxo e dar àquilo um certo sentido, você faz com que a vida continue.

Nathalia – De vez em quando me ocorre ‘cair uma ficha’ sobre algo que se deu no passado… Quer dizer,  por uma mudança minha que se deu no presente, um amadurecimento de alguma camada, eu acabo ganhando uma nova perspectiva de entendimento sobre a memória de um acontecimento. Um entendimento que, no entanto, eu não consegui elaborar naquele instante, embora algo em mim estivesse captando aquele jogo de forças.

Johannes – Isso acontece porque enquanto você está vivendo a coisa você é a coisa. Por exemplo, eu estou aqui sentado, provocando uma certa tensão corporal aqui na relação com a cadeira, no ambiente: isso aqui é um mundo. Então, enquanto eu estiver sustentando essa tensão – de dentro dessa situação – eu não sou capaz de articular um pensamento sobre o que estou fazendo. Eu simplesmente estou vivendo o acontecimento. Para que eu possa refletir sobre ele, é necessário que aconteça alguma modulação, algum movimento que me desloque desse lugar de tal forma que a impressão daquela situação cria em mim uma imagem, que é a memória. Então, é na hora em que se dá essa modulação da fáscia – ou seja, que você sai daquele evento – é que um novo acontecimento pode se colocar. E vamos dizer que se abre uma nova camada, a partir da qual você então pode se voltar sobre aquela outra e vê-la de perto.

Nathalia – Eu vivi algo do gênero num dos encontros do Seminário da Biodiversidade Subjetiva. Eu havia passado por uma situação traumática na noite anterior, em que um ladrão pulou na garagem para roubar minha bicicleta e eu fiquei sem reação… Só consegui efetivamente ligar pra polícia no instante em que ele foi embora. Bom, aí eu estava lá no seminário experimentando uma proposta da Regina, que consistia em vivenciarmos modulações de agregação de si em relação ao ambiente… Experimentávamos isso em diferentes graus e ocorreu que, numa determinada passagem dessa modulação eu senti como se tivesse acessado precisamente o lugar onde estava alojada aquela emoção ligada ao trauma. Simplesmente a coisa se presentificou novamente. Foi tão rápido e pontual que, ao passarmos para outro grau de agregação, aquele sentimento se desvaneceu completamente… Como se tivesse sido esquecido, mas eu sabia que continuava lá. Simplesmente a coisa se apresentou novamente!

Johannes – E de repente aquilo se dissipa, né?… O que acontece é que memória não desaparece, tanto é que você ainda é capaz de ver o cara pulando o portão etc. Também não se vai apagar aquela expressão que você teve no momento. Ela está aí. Mas você continuou a vida em cima disso. O que acontece é que você pode ficar paralisada por anos a fio ali, naquele ponto. Você está aqui conversando normal, mas quando mobiliza um certo ponto vê-se que aquilo ainda está lá. A forma está ativa ainda. E não é que ela irá se desativar na sua fáscia, porque seria como se o acontecimento se desfizesse. O importante é que aquilo ganhe movimento, que você consiga reagir! Caso contrário, você estaria lá até agora paralisada com o dedo no celular. Então essa mobilidade que você consegue fazer pelo chamamento das superfícies, é nisso que consiste esse trabalho da pulsação: fazer com que a fáscia possa novamente voltar a se dilatar, pra que todo o sistema recomece a se mover e a excitação consiga voltar a percorrer todo o corpo, ao invés de ficar dando looping constante. Porque, no caso do trauma, a excitação sobe e não consegue virar movimento, aí ela fica em looping. Então, tem que haver algo que dispare o looping, para ele poder esvaziar. Se não, você fica com dor de cabeça, no estômago, não consegue dormir, essas coisas. E na hora em que você acessa de novo aquele conteúdo e vai deslocando, indo pra frente e pra trás com aquilo, você vai dando movimento e fazendo com que a vida continue. Aí a vida não irá formar camadas sobre o ‘susto’, mas sobre ações do tipo tomar providências pra aumentar a segurança da sua casa, talvez pensar em colocar uma grade ou instalar um alarme etc… Você sai da paralisia e começa a elaborar soluções. Mas se você simplesmente fica ali, a fáscia vai e estrutura isso. Ela se compõe e dá toda a atenção para que aquilo se torne permanente, estabilizado, com camadas. Aí quando você faz um trabalho ou experimenta alguma coisa que faz com que o tecido volte a ficar mais amolecido, abrindo pro fluxo passar novamente, você pode até não articular uma resposta àquela memória, mas você vai certamente ter as imagens de novo. E aí apresenta-se a chance de buscar novos encaminhamentos. Porque a excitação tem um limite: ela pára sempre no máximo e inibe a tensão. Se você só vai até o limite dela você fica dentro daquela forma… Mas se você vai além dela,  se você conseguir impulsionar um grau maior de excitação você a ultrapassa e aquilo que era estável fica então menor e se torna assimilável, ou seja, aquela excitação passa a ser reconhecida pelo sistema: ela se torna memória.

Nathalia – E fica incorporada…

Johannes – Fica incorporada como memória. Você já não está mais estacionado naquele acontecimento: você tornou a dar movimento àqueles fluxos, tornando possível sua assimilação enquanto memória. A excitação se torna assimilável, do ponto de vista da quantidade de excitação que está passando pelo sistema nervoso e entrando no sistema límbico. E, na medida em que ela pode tornar a passar, ela fica assimilada no campo e vira uma ‘notícia interna’. Aí sim você consegue dizer “ah, ontem me aconteceu isso!”. Porque com as lembranças comuns nós conseguimos fazer isso, já que aquilo não nos evoca uma resposta muito intensa ou rápida. Mas em casos mais intensos, como este de que estamos tratando – seja porque você ficou pouco motivado ou muito motivado em relação a um determinado evento – você tem que tornar a acessar esse lugar para poder restaurar o fluxo da excitação: para fazê-la tornar a subir ou tornar a descer. Para que volte a existir um percurso de movimento. Então, se a fáscia está muito frouxa, a pessoa vai perdendo conectividade com o ambiente, ficando apática, misturada, sem diferenciação de si e do outro… Os tecidos estão muito moles para que a informação circule satisfatoriamente e produza uma resposta.

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Nathalia – Aí não fica muito claro onde está o emissor e o receptor.

Johannes – Não, fica uma confusão. E, de outro lado, quando o tecido fica hipertônico (excesso de tônus), surge um espaço na resposta. Quer dizer, a fáscia está hipertensa e emite uma resposta desarticulada do acontecimento. Aí, nesse caso, tudo é súbito, é aflitivo. Porque também é desconecto, entende? É como eu me sentar aqui nessa cadeira todo retesado – não acontece um encontro com a cadeira. Voltando ao exemplo do violoncelo: para que você consiga pegar e tocar o instrumento é preciso que você fique lá. E fica um tempo… experimentando esse contato até que a conversa se dê, que a modulação se construa, daí é que a música consegue disparar. Se você ficar lá hipertenso repetindo a ação, você não está de fato ‘tocando’. Porque tem uma intensidade tônica nas cordas, na sua mão e no arco, que não pode ser frouxa demais, nem tensa demais.

Nathalia – E o lance consiste em você intensificar os seus contornos de modo a intensificar também a percepção do outro, daquele corpo.

Johannes – Sim, é isso…

Nathalia – Então, no fundo, é isso: quanto mais você intensifica a percepção de si, mais disponível você se torna para a comunicação com o outro?

Johannes – Isso! Você fica no jogo… Você está na atividade fórica. “Estou aqui e estou sabendo que a bola está ali… sei também que tem um pouco de vento passando, que a luz entra pelo meu lado esquerdo etc”. Então, primeiro eu sei de tudo isso e depois eu começo a recortar. Porque se eu não sei disso, como é que eu modulo?

Nathalia – Bem, e aí tem as neuroses que todo mundo está vivendo… Em diferentes graus, mas cada corpo experimentando as aflições dessa perda de conectividade com o ambiente, produzindo respostas automáticas, ou incapazes de responder com agilidade aos eventos. Como abordar um corpo em que esses padrões já se encontram num grau muito intenso de desconexão, sabendo que junto com essa estrutura fascial há também toda uma estrutura de vida sustentando aquele padrão? Ou seja, sabendo que as mudanças corporais exigem adequações no projeto de vida que a pessoa vinha levando? Como mexer nisso sem destruir tudo?

Johannes – Pois é, então isso tem que acontecer aos poucos. Há momentos em que o trabalho da fáscia irá focar simplesmente no pé, por exemplo… Ou só superficialmente na pele, num determinado ponto onde a pessoa se sinta confortável. Porque partindo do princípio de que o corpo é um tecido e que pela fáscia tudo se comunica, eu posso estar aqui com um dedo tocando o braço e por aqui eu atinjo toda a estrutura. Então esses graus de aproximação e de intensidade da mobilização é determinado pela disponibilidade daquele corpo e aí entra toda a história de vida daquela pessoa.

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Nathalia – Compreendo. E imagino que cada corpo deva dizer sobre o grau de proximidade ou de intensidade de intervenção que ele dá conta naquele momento, certo?

Johannes – Sem dúvida. Já tive aqui uma paciente numa sessão em que só lhe apliquei um toque superficial no abdômen e, para ela, aquilo já foi íntimo demais. Então, há momentos, por exemplo, em que a pessoa sequer vai pra maca… A interação fica assim nessa distância, acontecendo pela conversa. E o que é interessante no trabalho com a fáscia é que você pode ir estabelecendo esse diálogo de várias maneiras, porque se o que está sendo possível naquele momento for apenas ficar ali no dedão do pé, está ok… Porque eu sei que todo o conjunto vai responder a isso, já que o corpo é uma geometria movente. Que quer dizer isso? É a ideia de que, a partir de uma parte que se move, toda a estrutura se reorganiza em um processo de ressonância interna, que gera desdobramentos e vai compondo uma nova arquitetura. A fáscia, por ser um tecido conjuntivo, permite mobilizar todo o sistema partindo de qualquer ponto. Então, aí a gente vai pra história daquele corpo, percebendo as indicações de por onde pode se dar esse acesso.

Nathalia – Johannes, por falar em histórias do corpo que podemos ler pela sua superfície… Quando eu olho para você, por exemplo, vejo um homem enorme, de uma estrutura imponente que causa uma certa impressão de força, de virilidade e esses nomes todos. Porém, quando se começa a conhece-lo, nota-se que sua gestualidade e sua personalidade transmitem uma delicadeza e uma sutileza que me parecem dizer algo totalmente oposto ao que me mostra seu design. Ora, se estamos aqui dizendo que corpo /forma me contam sobre tudo o que está dentro, como compreender essa leitura que,  à princípio, pode parece paradoxal?

Johannes – Mas não é necessariamente paradoxal. Se você pensar que eu sou mestre de karatê e um interessado na cultura japonesa como um todo,  esse enlace fica mais claro. Porque essas artes marciais orientais não estão trabalhando com a noção de ‘força muscular’. No Tai Chi, por exemplo, onde você tem aqueles padrões de movimentos circulares, fluxos contínuos… Esses são movimentos fasciais! Ou mesmo na arte da caligrafia, o manuseio do pincel tem uma total precisão e domínio do gesto e, no entanto, ele é leve, não há força. De novo, tudo ali acontece pela fáscia. Estou conduzindo um grupo de estudos de movimentos fasciais, onde nós trabalhamos com essa qualidade fluida e pulsátil que não passa pela ação muscular. E eu fui me trabalhando nessa ideia dentro do karatê que eu pratico e de outras pesquisas que também desenvolvo. A estrutura é forte mas ela pode ser suave, flexível, para permitir as modulações da energia.

Nathalia – Eu refleti muito sobre o comportamento dos japoneses após a Tsunami e sobre como eles mantinham uma certa ordem e calma social mesmo sob condições caóticas… E não houve como deixar de ponderar que se algo semelhante tivesse se passado aqui no Brasil a coisa teria tomado outro aspecto, que aliás acontece toda vez que alguma enchente causa um estrago em alguma cidade.

Johannes – Então, mas o que acontece é que nós aqui vivemos numa sociedade normativa, ou seja, uma estrutura que funciona a base de regras e de normas que te dizem o que você deve ou não deve fazer e todo um regime de punições ou recompensas. Já o Japão a coisa é diferente: é uma sociedade formativa. Toda a cultura japonesa está fundada em ‘modos de fazer’ que são transmitidos de uma geração a outra e que estão assimilado nos corpos. Então essas formas vêm modelando um certo comportamento que estabelece a estrutura social e dá mais coesão do que o sistema de regras e ameaças de punição. A diferença entre uma atitude normativa e outra formativa pode ser metaforizada na imagem de um motorista que só freia o carro porque o sinal está vermelho, enquanto outro motorista freia porque vê um pedestre querendo atravessar e espontaneamente decide dar passagem. Ou seja, que corpo é esse que se move socialmente apenas de acordo com o que lhe determina um regime de normas, vigilâncias e punições? E que corpo é esse que opera numa certa relação de reconhecimento do outro que não é mediada por uma obrigatoriedade legal? É claro que com isso não estou dizendo que ambos os corpos não possam existir dentro de um tipo de sociedade. Mas o fato é que o agir formativo envolve certo empenho individual: trata-se de um trabalho que se faz sobre si. Já o comportamento normativo está condicionado por leis. E esse assunto é só pra gente começar a perceber que quando se toca em questões como ‘ética’, é interessante compreender que há certos discursos e forças que estão orientando e modelando os comportamentos, as subjetividades, configurando uma certa maneira de nos relacionarmos com o ambiente, com o outro e com nós mesmos. Então, toda essa conversa sobre a fáscia passa também pela questão da produção dos corpos dentro do tecido social, que é o nosso ambiente.

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Noite no deserto

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O tempo adornou de areias

a face de uma palavra esquecida no deserto.

Áspera e ocre, a palavra ganhou nome:

Solidão.

 

Um nômade pastor

tocando cordas de tripa

vence a longa noite

junto ao corpo do alaúde.

 

É um vasto silêncio

e ecos de eras imemoriais

dançando como neblina rumo

ao fundo céu de um oriente

imaginário.

 

A voz ressoando assim

amarela, seca e infinita

vinda de um instrumento solitário

Faz a noite refrescar as dunas

com estrelas prateadas.

Grande Sertão: Travessia

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São Paulo, fevereiro de 2008

Carta a uma amiga atriz:

“Acabo de completar a leitura de Grande Sertão: Veredas. No fundo de tudo que estou sentindo agora e que nem sei se é coisa que chega a tomar corpo de sentido ou sentimento, resta-me essa insólita perturbação. Parece… Apenas “parece”, que conheci um lugar. Não posso descrevê-lo, porque nem sei se o que vi, vi. Se vivi ou sobrevi. Como quem pesca no ar um fragmento de coisa viva e fugaz, rapidamente cerrando o punho sem ter podido ver se o que pegou foi pego. Ao que, se abrindo as mãos, as coisas escapam aos dedos das palavras. Ideia é como um vagalume que é luz e nada ao mesmo tempo: se esconde sem sair do lugar. Pois bem. Começar este livro foi mergulhar num abismo de túnel sem chão nem princípio. Início da travessia.
Então, numa manhã vadia de janeiro, no afã de rasgar viagem comprida por querer cumprir, no real, a viagem apenas devaneada, fomos que arrancamos de carro até o norte de Minas Gerais. Queríamos o Sertão! Eu queria e não queria. Soubesse? “O que antes não sabia, hoje não entendo”, me dizia Riobaldo. Rumamos. Mais atrás, deixávamos nossas vidas em busca da alma viva do Sertão. O Sertão tem alma? Tem vida? O nó desgosto de mais ir e ir sem conhecer destino prévio. Íamos ficando cada vez mais distantes da origem, buscando a origem das coisas. Crescia de um lado nosso alívio, por estranho e desarrazoado esquema que calculava esperanças de chegar. Mas aonde? Conforme, então, esticávamos o fio da jornada num esforço desventuroso de não poder voltar e tampouco estar certo de prosseguir.
Em Belo Horizonte, pernoitamos em mal humores e solidões. Desistimos? Continuamos. E quanto mais ganhávamos lonjura, mais longas e desoladas ficavam as horas. O tempo ía assim se tresmudando mudo em extensas rodovias. Veredas imensas desse País sem fundo. Estradas ruins de crateras e caminhões. Sete Lagoas, passamos. Chuva miúda e contínua caindo de um céu pesado e cinza que situava os limites de nosso poder respirar. E, de repente, como que sem saber disso, já nos achávamos dentro de uma guerra surda e sem juízo. Debatíamo-nos nos internos do corpo num silêncio denso, a banhar de ocre as paisagens. Ou teria sido o inverso? E o que figurava ser o nosso esboço de resistência e coragem – sustentar um sorrir murcho, bobo e seco – nascia ali mesmo, da luta. Contra quem?
Então sentimos o aproximar de outra sorte de lugar: era o cerrado, principiando-se amarelo. Muitos caminhões de carvão. Nada nos salvava. Qualquer sede que se tivesse, vontade de café ou de bala, já constituía algum objetivo e garantia uma breve saciedade de nexo. Qualquer coisa nos salvava. Aonde quer que pousasse a vista naquelas paragens, caçava a sombra silhueta de dois sertanejos montados em seus cavalos, indo ou vindo. Jagunços em situação: Riobaldo e Diadorim. Eu queria, acreditava. Minha alegria aumentava à expectativa e firme crença num repentino encontro que se daria. Eu buscava era um algo que se encorpava mais e mais a cada quilômetro passado e que, a qualquer momento, se revelaria perfeitamente tocável e substancial. O qual ainda não vinha. Viria?
Passamos Cordisburgo, onde nasceu o autor da saga. Abriga um museu em sua homenagem e também o roteiro “Guimarães Rosa”. Já era o começo do Sertão. E como se tudo ali tivesse pulado pra fora do livro, meu imaginar vagueava entre realidades a um só tempo críveis e fantásticas, no anseio de atingir o coração do enredo! Como se ao dobrar da curva na estrada, justo logo adiante, eu pudesse deparar-me ante a material figura dos meus personagens! Nossa meta, nesse segundo dia, era chegar a Montes Claros para amanhecer e rumar mais duas horas até Januária: nosso destino final por projeto ou desvario. O que queríamos lá?
Eu já estava lá pelas 400 páginas do livro percorridas. Pela janela avistávamos Corinto, Lassance e, com mais um pouco, alcançamos Montes Claros. Cidade feia. Tanto viajamos para dar naquilo. Tudo se desmoronava. A maré de nosso frágil ânimo recuou mais uma vez, deixando uma ressaca de estrada e a gastura que nos acabou em desilusão. Sentimento de perder antes mesmo de ter encontrado. Que era que pretendíamos naquele fim de mundo? Ali era o nada. Não era cidade de verdade, nem bem um interior bucólico, nem coisa alguma. Dessas típicas cidades brasileiras que são apenas aquilo no que deram e que vão se empurrando pra frente como podem. Ficássemos em São Paulo, sertão que já conheço e onde as coisas funcionam 24 horas. Mas ali?!
Era só desânimo… Estávamos para o súbito deserto. Ao redor de nós, o Sertão. E dentro de nós. “O Sertão é quando menos se espera”. Sem cheiro de origens, sem entradas, nem saídas. Era como se a nós estivessem camuflados os portões de acesso ao interno de um lugar. Estávamos no não-lugar. A música ruim do rádio, a cultura toscamente copiada das capitais, suplantada na forma de um comércio rasteiro e insuficiente para fazer entornar um caldo grosso de cidade grande. Era o nem isso nem aquilo onde estávamos. Foi então que viemos a desconfiar que aquilo já era o Sertão, em seca e Estado. “O Sertão é sem lugar”, avisava Riobaldo.
Nos conformamos, vencidas. Daí adiante, foram só as desfeitas e as despedidas. Não chegamos e já partíamos. Mais não subimos. Não fomos à formosa Januária, com suas praias do São Francisco. Nos demos conta de que nosso destino era, na verdade, o rumar movimento por si, sem chegadas. Assim feito os astros cruzando o céu em seu roteiro diário, ao que, em parar, caíamos no buraco do nada. O Sertão é a estrada? Nosso chão era o trilhado e nosso estar era correndo. Estrada, estrada, estrada. Será que isso que não vivemos foi, em ausência tocável, o amor jamais consumido entre Diadorim e Riobaldo? Esse amor que não brotou e só à morte fez-se flor teria sido dessa nossa desventura o oculto mote? Miséria deles, miséria nossa. Sertão de muitos espelhos, muitos nomes. Medos que tínhamos e energias com que os enfrentávamos e que daquela terra mesma se produziam e afloravam. Medo do exílio, da insensatez, da loucura e da morte.
Queríamos e não queríamos mais dirigir. Quanto mais andávamos por sobre aqueles campos de abandono, mais adentrávamos “no vazio do vago”. Tudo era um sim e um não justapostos e encruzilhadas. Podíamos tudo tanto quanto nada. O absurdo daquela viagem sem fim de descanso nem de finalidade. A gasolina sendo gasta para o sem razão alguma. Travessia. Viemos descendo por Pirapora, aonde o velho Chico corria afoito e breve como nós. Praias não havia. Nem um naco de silêncio. Só pagode, axé music e coisa assim… A desalma! Não encontrei Diadorim. Foi como ir de surpresa à porta de um amigo e lá chegar dando com a casa vazia, o dono estando noutro lugar.
Fizemos Três Marias e o resto do percurso, que na vinda nos levou três dias, agora tudo de uma vez. Ver o sol ali nascer novamente era já uma tal exaustão psíquica que preferimos sucumbir ao volante num dia inteiro de retorno. Afinal, também o corpo se recusava a descansar longe do cheiro de casa. E foi assim que, sem dizer adeus, nem olhar pelo retrovisor, fugimos aquele Sertão que nos engoliu antes que nele puséssemos olhos. Do mesmo jeito que nos devorou e quase enlouqueceu, para fora de si nos cuspiu. Nossa visão era à frente, para o ir-se embora, como afugentadas de onça braba. E foi somente o chegar em casa – com olhos, pés, nariz e mão – que, no cerrar da porta, deixamos em definitivo o Sertão.
Mal agora terminei o livro. Refeita do vão de uma tristeza sem beira, escrevo-lhe dando medidas ao que é mensurável e possível. O que não é, não digo porque não é para ser, tal como o Sertão que existe sem se ver – esses mundos que se soerguem pelos abismos e veredas do Silêncio. Coisas não identificáveis. E eis que, de novo, ele vem: o Sertão, enfunando o coração da gente. “O Sertão é assim: o Senhor empurra ele pra trás e ele volta a rodear o Senhor pelos lados”. Ah, Riobaldo, mano velho! Segredo difícil o seu, de carregar na barriga o umbigo da poesia… Travessia. De tudo isso que não me cabe em natureza de pensamento, nessas lamas sertanejas da mente, apenas uma música de Egberto Gismonti ecoa fraca e tremeluzente feito aquela ideia-vagalume. Como álbum de uma faixa só, fica ela se repetindo qual caroço de desentendimento que restou como resíduo a flutuar em minha cabeça:
Pau rolou, caiu
Pau rolou, caiu
Foi na mata, ninguém viu
Pau rolou, rolou…”

Istambul – 28 de junho de 2013

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Tudo me tem atravessado e arremessado em mil direções. Às vezes, desejaria ser um dervishe girante, entregue ao rodopio do corpo descansando circularmente no cosmos. Ar. Acho que já não me sinto mais à deriva nesse turbilhão. Processo mil imagens a cada momento, como diafragmas múltiplos fotografando o espaço de cada poro da pele. Minhas superfícies fisgam o ambiente como os pescadores crivam de anzóis o mar do Bósphoro. Muitas impressões escapam à rede verbal com que parcamente dou conta de testemunhar. Viajar não é fácil, são muitos os caminhos. Fico tonta com tantos giros. Do alto dos minaretes, em todas as mesquitas, soam os cantos devocionais que convocam os muçulmanos às obrigações religiosas. Todos vão a Deus. Chamados vindos de todos os lados cruzam os céus de Istambul cinco vezes ao dia, rasgando como um relâmpago incandescente o caos da cidade e impondo um vigoroso princípio de ordem. Não há como não se sentir intimidado e pequeno. É grandioso, porém banal. O cotidiano fecundado por algo que atravessa. Penso que os cantos modais cumprem essa função de estabelecer um eixo transcendente em torno do qual se funda todo o cosmos social. Assim como o dervishe girando sobre si. Fundar o tempo e o espaço ao entoar a música que embala a vida dos seres humanos comuns… Assim como dançam as partículas em torno do Sol.

Istambul
Istambul

Botswana… Janaína… Olhares

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“Ná,

desculpe a demora em responder seu último email (…) O camp está cheio, gente do mundo todo! Ontem tinham alemães, ingleses… Hoje passei a manhã na comunidade, num evento de proteção aos Urubus… É isso mesmo, eles são super importantes para o ecossistema e as crianças da comunidade devem aprender. Teve musica, dança, foi bem legal!!! Ontem a noite o leão rugiu… E o céu estava lindo, dando pra ver a Via Láctea!!! Sonho de verdade.

MUITOS BEIJOS e obrigada por tudo, mais do que entrevista, do que palavras, mas o que a gente aprende com as pessoas que aparecem na nossa vida!

Jana

Botswana, 06/08/2013

Entrevista com Janaína Matarazzo

– Leia também o artigo: Assim na África, como aqui.

Nathalia – Eu fico pensando no que teria levado Janaína Matarazzo à África, para viver num safári camp, trabalhando num projeto ecológico… Fale um pouco sobre sua trajetória antes de ir para lá. Você já era fotógrafa?

Janaína – Então, na verdade ainda não. Quando cursei Design na universidade, eu já curtia bastante a fotografia e trabalhava como assistente de um fotógrafo de moda… Eu tinha uns 19 anos e foi nessa fase que eu saí de casa. Já trabalhava nesse estúdio e o meu foco era sobreviver. Então comecei a fazer outras coisas ligadas a design e acabei me afastando um pouco da fotografia, porque minha história não era moda. Aí fui corretora de imóveis por seis anos… Eu gostava de encontrar lugares legais para morar em São Paulo! Hahaha… E acabava sempre ajudando meus amigos a achar apartamentos, aí decidi fazer isso profissionalmente. E foi muito legal, porque todas as pessoas para quem eu encontrei um lar acabaram tendo uma história feliz ali, foi gratificante. Mas depois eu me cansei dessa missão… Senti que precisava partir em busca de novos aprendizados, um novo desafio.

Nathalia – E de onde vem esse engajamento com a questão ambiental?

Janaína – Eu sempre tive uma conexão muito forte com os animais. Sempre conversei com meus cachorros como se fossem pessoas! E bom, nessa época em que eu parei de trabalhar como corretora, eu já estava querendo trabalhar numa ONG. Aliás, quando eu era bem nova, meu sonho era trabalhar no Green Peace. Então, eu já era filiada ao Partido Verde e achava que devia me tornar uma ativista. Daí fui fazer uma formação de Terceiro Setor na USP, que na época era um curso novo. Tentei trabalhar em organizações como Instituto Ayrton Senna, Fundação Abrinq ou a Acatu, todo esse meio que hoje ficou bastante amplo. Acabei não conseguindo uma vaga nesses lugares, aí fui trabalhar na Prefeitura de São Paulo por um tempo, na secretaria de esportes. Porque chega um momento em que você aprende que se você quer promover a mudança isso tem que passar pelo governo. E eu tive a oportunidade de trabalhar na prefeitura por uns sete meses. Aí eu fiquei meio puta com tudo o que eu vi lá, sabe…

Nathalia – O que mais te incomodou?

Janaína – Ah, é o funcionário público que não trabalha, é o sistema todo. Acabei entrando em contato com um pouco de cada coisa, conheci toda a história da cracolândia, visitei todos os parques públicos da cidade, vi também a situação dos jovens órfãos que estão sob a tutela da prefeitura…  Que são adolescentes sem família ou moradia e que ficam sob a responsabilidade do poder público, aí tem todo um acompanhamento psiquiátrico etc. Então, eu fiquei conhecendo toda a estrutura social da cidade de São Paulo. Aí, depois desse período eu pensei assim: ‘Será que eu vou ficar aqui a minha vida inteira tentando mudar uma história que eu nem sei se vai mudar’? E também eu já não me via mais morando em São Paulo, não havia nada que eu quisesse fazer. Estava faltando alguma coisa. E já estava pensando em ir para algum lugar onde eu não visse mais prédios… Só natureza. Aí eu comecei a pesquisar projetos no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Mas eu tinha esse chamado da África, era um sonho de ver os leões. E aconteceu de achar esse lugar em Botswana, através de um amigo. Aí foi todo um processo. Eu cheguei lá e tudo me absorveu… Os sons dos bichos, as árvores, eu prestava atenção em tudo.

Nathalia – Conte um pouco como foi essa chegada.

Janaína – Quando eu cheguei ao acampamento… Nossa… Foi uma sensação de como se eu já tivesse estado lá, sei lá, não sei explicar. Eu prestava atenção em tudo, mas ao mesmo tempo me sentia muito confortável. Tudo me absorvia… Havia o medo dos animais, é óbvio, mas era como se estivesse voltando para algum lugar, não sei… Eu sentia que ‘Ufa, cheguei! Sabe? Foi muito forte.

Janaina Matarazzo

Nathalia – Como se tivesse voltado pra casa… Foi imediato?

Janaína – Imediato.

Nathalia – É curioso isso em relação à África… Conheço uma pessoa que foi trabalhar como intérprete na copa da África do Sul. E ela conta que na primeira noite que chegou, antes de dormir, ela preparou o despertador para tocar às 7hs da manhã, pois já tinha compromisso logo cedo. Ocorre, porém, que ela não conseguiu acordar: dormiu profundamente até muitas horas depois. Ela diz que esse foi o sono mais restaurador da vida dela. Como se ela tivesse se recuperado de um cansaço ancestral! A gente costuma se referir a este lugar como a ‘mãe-África’, o berço da humanidade… De fato, talvez ali tenha mesmo uma certa atmosfera de acolhimento arquetípico.

Janaína – É, porque lá tem mesmo esse negócio das origens… Você se sente assim como num ‘Jardim do Éden’. É como o começo de tudo. Então você fala “poxa, eu quero ficar aqui! Aqui é que é legal!”. Você pensa que é assim que a gente devia estar vivendo… Tipo, vamos parar e começar tudo de novo?!

Janaina MatarazzoNathalia – Isso é bem compreensível… Ainda mais vindo de um processo de desencantamento total com São Paulo, não é? Quer dizer, depois de um estágio pelas periferias, pelos abandonos e as cracolândias, imagino que você já não conseguia mais olhar para a cidade da mesma forma, não é?

Janaína – Ah, não… Não dá. Mas também conheci muita gente legal nesse período. Conheci o pessoal que fazia aquele projeto de boxe embaixo do viaduto da Av. 9 de Julho, tinha também aquele projeto de skate nas prisões… Até hoje tenho amigos que fiz nessa época. Então conheci gente simples que vai até a prefeitura e diz ‘eu tenho um projeto, me ajuda a fazer?’. Aí você vê que realmente todo mundo devia estar envolvido com a prefeitura, porque é o sistema que faz tudo acontecer, né?

Nathalia – Ou que não faz…

Janaína – É, mas todo mundo é responsável por isso, porque não participa. Se você reclama, você no mínimo tem que ir lá ver o que é que está acontecendo. Então vamos parar de ficar falando e vamos lá ver como é! Sabe? A subprefeitura é um lugar onde todo mundo devia ir, ao menos, uma vez por mês para saber o que está acontecendo. Mas, em geral, a gente não tem esse envolvimento. Bom, eu sempre quis contribuir de alguma forma… Só que aí chegou um momento em que eu tive de reconhecer que já não dava mais pra encarar, porque o sistema todo está muito comprometido. Os funcionários públicos não produzem e isso é um fato. É um sistema falho, no qual você contrata um monte de gente que não trabalha. Há, sem dúvida, a sua pequena porcentagem de exceção, mas a maioria está lá pendurada. E isso acontece em todos os setores e lugares. Eu trabalhei no Clube Pelezão, na Lapa, onde os funcionários chegavam as 10hs30 da manhã, paravam duas horas para o almoço e iam embora às 16hs30! E enquanto estavam lá eles se sentavam e simplesmente não faziam nada. Entendeu? E você não tem como demitir essas pessoas, porque é praticamente cargo vitalício… Uma vez que o cara entrou lá só sai na hora de se aposentar.  Aí pensei ‘eu não vou ficar aqui’. Vieram as eleições e eu decidi sair por uns três meses. Mas não foi fácil o processo de ir morar em Botswana, foi bem difícil. Conseguir vistos, implementar projetos…

Nathalia – Ah é?

Janaína – Sim, porque eu comecei a fazer muito projeto com a comunidade e eles têm resistência a mudanças. Eu quebrei vários paradigmas lá.

Nathalia – Por exemplo…

Janaína – Eu comecei a trabalhar com os jovens da comunidade local para desenvolver projetos de arte. Porque a idéia era aliviar a dependência econômica da comunidade em torno da pecuária, mostrando a eles os benefícios do turismo. Tirar a pressão da sobrevivência por meio da criação de boi e vaca, porque o grande conflito que acontece na região é entre vida selvagem e pecuária. Os homens matam os bichos porque eles atacam o gado ou porque eles servem de alimento. Eles olham para uma tartaruga e pensam ‘hum, que delícia’. Então a equação é essa: vamos dar a eles lucro com o turismo, mostrando que para isso é necessário preservar a vida selvagem, já que os turistas vêm para ver os animais. Aí começamos a trabalhar com os jovens, desenvolvendo produtos artesanais e criando uma loja no camp onde eles poderiam vender esses produtos e ganhar dinheiro.

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Nathalia – Isso foi você quem introduziu?

Janaína – Sim. Aí eles poderiam começar a entender que dá pra ganhar dinheiro de outra forma. Porque não adianta, a coisa tem que acontecer pelo financeiro, a comunidade precisa ter uma fonte de renda pra sobreviver. Aí, aconteceu que uma vez o líder da comunidade chegou e me cumprimentou pelo trabalho que estávamos fazendo com os meninos e tal, mas em seguida reclamou que eles estavam ganhando muito dinheiro. Então, os jovens vieram até mim e me pediram para não contar mais a ninguém quanto eles estavam ganhando, porque isso esbarrou numa questão cultural deles, que é o interdito de que os jovens jamais poderiam ser mais ricos que os mais velhos. E os meninos vieram dizer que os mais velhos estavam ficando contrariados porque os jovens estavam ganhando muito dinheiro, logo ganhando poder. Aí eu concordei em ficar quieta e propus a eles que, a partir dali, ganharíamos mais dinheiro, só que sem contar pra ninguém!

Nathalia – E como foi apresentar essas propostas dentro do camp? Fale um pouco sobre a relação com o Camp… Quem é o proprietário do lugar?

Janaína – É o David. Um inglês que tem uma longa história de safári… O pai dele já fazia safári de caça. Eles vieram do Quênia, assim como outras famílias inglesas que migraram para lá, há muito anos. Ou seja, são duas gerações envolvidas nesse negócio. Mas, ao contrário do pai, que trabalhava com o turismo voltado à caça, o David e o irmão começaram a fazer safári fotográfico. E aí o David ficou com o safari camp, enquanto o irmão dele seguiu fazendo mobile safari.

Janaina Matarazzo

Nathalia – Como funciona esse tipo de safári?

Janaína – O mobile safari é um safári itinerante, ou seja, você não se instala definitivamente num parque. Você monta acampamentos provisórios em determinados pontos acompanhando a rota migratória dos animais, de modo a poder oferecer safári turístico o ano inteiro. Já o acampamento onde eu vivo é fixo e permanente, embora tudo seja feito em tendas.

Nathalia – Mas você falava sobre a sua chegada lá…

Janaína – Então… Aí, o que aconteceu: alguns anos após a criação do camp, houve o surto da febre aftosa, que atacava o gado. Nesse período, o governo começou a cercar os territórios da pecuária para separá-los dos animais selvagens que, segundo ficou provado, eram os agentes da contaminação. Porque Botswana é um dos maiores fornecedores de bife para a Europa, então veio uma comitiva europeia que interveio diretamente no governo e acabou se decidindo dividir os ‘dois mundos’ para evitar o contágio e, dessa forma, proteger a produção de carne bovina. Na realidade, a cerca também foi uma exigência dos povos que habitam o local, para apartar animais ferozes, proteger as plantações dos elefantes etc. Nessa época, o David já tinha o camp, que está localizado bem em frente a um trecho do rio estava seco quando eu cheguei lá. E ele via muitos bichos morrendo, porque ficarma impedidos de acessar a outra parte do leito onde ainda havia água e que ficou cercada para o lado do povo e do gado. O governo foi lá e criou poços artificiais para os animais, mas isso nunca funcionou. Eram umas poças horrorosas e, de qualquer maneira, isso não dá certo com os bichos selvagens. Eles têm roteiros migratórios, é o caminho deles… Não é como um cachorrinho que você coloca o potinho de água ele aprende a ir lá. Não é assim. Então o David acompanhou essa fase da seca, da consequente morte dos bichos e ficou louco da vida…

Janaina MatarazzoNathalia – Isso foi em que ano?

Janaína – Foi em 2003. Aí ele chamou os Green Peaces da Inglaterra, uma agência bem importante. Fizeram matérias impactantes e receberam até algumas mensagens do governo para que parassem de divulgar o assunto. Claro, porque tudo isso envolve muita politicagem. Então, quando o David viu o que estava acontecendo com a vida selvagem após a implantação da cerca ele decidiu criar dois poços d’água em frente ao camp e fundou a ONG Water For Life (‘Água para a vida’), a fim de arrecadar fundos para a manutenção desses poços. Porque os custos eram altos. Imagine ter que puxar água constantemente para uma manada de elefantes, de zebras e wildbeasts? Além disso, os elefantes viviam quebrando os canos; havia também os gastos com combustível, pois esses poços funcionavam através de geradores que bombeavam a água. Então foi essa a solução provisória que a Water For Life encontrou, pois o governo não tinha planos de remover a cerca. E foi durante esse projeto que o David percebeu a necessidade de trabalhar com a comunidade local próxima, educando as pessoas sobre a importância do Turismo e dos animais selvagens. Porque o povo não tem muitas outras opções de sobrevivência além das vacas, dos bois, jegues e bodes. Portanto, o David começou com a ideia de oferecer uma estadia mais longa aos turistas pra que eles tomassem conhecimento do que estava acontecendo na região e pudessem atuar como voluntários. Só que é um projeto pago, porque há os custos da estadia. E você vai com um visto de turista, não de trabalho. Eu já havia mandado muitos emails pedindo a ele para ir lá trabalhar sem ter de pagar, mas no final acabei indo no esquema normal e entendo que a coisa tem de ser assim.

Nathalia – É muito caro?

Janaína – Eu paguei $4000,00 dólares para ficar lá por três meses… Foi uma decisão. Porque não havia outra forma de me aproximar daquele contexto. Como é que eu ía me enfiar no meio dos leões? Você não chega a pé num lugar desses, é necessária toda uma estrutura! Aí eu tive uma relação amorosa com o David no início do processo, o que acabou contribuindo para eu ficasse por lá, após os três meses. Esse namoro foi muito importante, pois foi o que me fez continuar, me incentivou a insistir. Porque, de outra forma, talvez jamais tivesse rolado uma conversa com ele sobre a hipótese de eu permanecer no camp trabalhando. E ele tampouco estava necessitando de gente lá. Aliás, até hoje eu sou a única pessoa que trabalha no projeto, porque é necessário dinheiro para manter alguém que faça as coisas, que cuide dos vistos, tenha gás pra fazer tudo etc. Além disso, o David também estava muito acostumado aos turistas jovens que chegavam mais no clima de curtir, sem a intenção de ficar ou de atuar de verdade. Então, ele percebeu que eu tinha realmente ficado impressionada e envolvida com toda a história e me propôs ficar e trabalhar. Aí nós entramos com um visto de um ano para a minha aplicação como voluntária.

jana-pessoas7Nathalia – Mas, antes de você seguir, eu queria que me relatasse um pouco como foram esses primeiros 3 meses… Como era o seu dia-a-dia?

Janaína – Então, primeiro você tem que aprender sobre o ambiente onde você está. Era tudo muito novo… Eu fiquei entendendo sobre todo esse lance de acampar, sabendo que o tempo inteiro você está em contato com bichos. Você tem que saber que há escorpiões, aprender quais são as cobras venenosas, o que você faz quando vê elefante, coisas do tipo. Essas primeiras semanas foram entender o que era estar no meio de tudo isso, além de auxiliar no dia-a-dia do camp, só que de uma forma mais turística. Então, eu ajudava no refeitório como garçonete, dava assistência para o pessoal envolvido com construção etc… Inclusive depois eu mudei um pouco esse esquema, porque a coisa ficava muito centrada em ‘ajudar o camp’ e pouco sobre ‘entender o projeto’. Muitos jovens ingleses iam para lá e, passados os três meses, eles nem sabiam o nome do projeto! Eu me perguntava o que eles estavam fazendo ali. Mais interessados em tomar a cerveja no fim da tarde do que se inteirar das histórias… Juro, não é brincadeira.

Nathalia – Porque a pessoa está pagando, logo não se sente obrigada a se envolver com a coisa…

Janaína – Pois é. Aí eu fui propondo coisas, criando projetos na comunidade… Porque o David era sempre sozinho para fazer tudo. Então, nesses três meses eu procurei aprender tudo sobre o projeto, sobre como a coisa funcionava. Conversava muito com o pessoal de lá para entender. Por que cercar, porque não cercar, por que matar bichos, etc… Entender também a cultura local. Aí você vai pegando o quadro todo, encaixando as coisas. Daí eu surgi com a ideia da lojinha no camp, pra gente vender coisas e poder arrecadar dinheiro. Comecei a propor ações de trabalho já nessa fase inicial. Mas, nesses primeiros meses, eu ainda só tinha uma câmera bem pequena, nem cheguei a tirar foto. Eu estava realmente observando, sentindo, absorvendo… Então eu chego à África sem pensar em fotografia, era mesmo para viver a viagem. Aí acabei ficando em Botswana por cinco meses. Depois disso, voltei para o Brasil pra organizar minha vida e aí comprei uma câmera digital, só que de uma qualidade mais legal que as comuns – até então o objetivo ainda era só relatar. Só que aí eu comecei a me dar conta de quanta coisa linda eu estava vendo e decidi que, quando tivesse condições, compraria uma máquina melhor. Porque eu sempre gostei de fotografar, mas no começo ainda estava só sentindo o lugar, digerindo e entendendo tudo. Então comecei a olhar as fotos que fui fazendo e senti um desejo de um dia fazer uma exposição, mas para isso eu precisava de uma câmera ainda melhor. Depois de dois anos e meio juntando recursos, eu comprei uma câmera de qualidade… Demorou pra conseguir, porque eu ainda não estava ganhando muito dinheiro! Foi só no ano passado que eu pude comprar uma boa lente. Então a brincadeira custa caro.

jana-pessoas8Nathalia – E como é que o camp sobrevive economicamente? Quem compra os produtos dessa lojinha?

Janaína – O camp sobrevive do turismo de safári. De turistas que ficam ali por duas ou três noites. É difícil fazer dinheiro com safári. Normalmente as empresas que trabalham no ramo operam com uns três locais de safári, ou seja, possuem uma estrutura maior… Aí sim, se consegue fazer dinheiro dessa forma. Mas quando você só tem um negócio é mais difícil. Porque a coisa envolve muito investimento, pois você precisa de carros, tendas, estrada, além da manutenção de toda estrutura. E você tem a época de baixa estação em que o turismo é quase nulo, pois os animais migram para outras regiões. Ou seja, você aprende a ganhar dinheiro só seis meses por ano, nas altas temporadas.Janaina Matarazzo

Nathalia – Fale um pouco sobre seu contato com os animais… Foi tenso no começo?

Janaína – Não, foi o máximo! Claro, teve alguns momentos tensos. Uma vez eu fui apagar uma vela e tinha uma cobra bem ao lado, muito perto. Eu apaguei a vela e a vi ali. Eu estava sozinha e ela tão perto de mim que eu simplesmente olhei e pensei ‘nossa, mas o que você está fazendo aí?’. E foi com tanta calma que nem eu acreditei nessa minha reação. Mas da vez que eu tomei a picada do escorpião, fiquei puta! Eu xinguei tanto o escorpião! Porque foram quatro dias de dor alucinante!!! Mas aí eu olho para esses bichos hoje em dia e consigo entender como eles são. Eu fiquei muito brava porque ele me picou, mas consigo entender a natureza deles. Só que foi bem difícil, veneno é um negócio que dói. Eu não tinha noção do que era isso.

Nathalia – Quais são os riscos a que você está exposta estando ali? Você sai sozinha pelo parque?

Janaína – Andando pelo parque? Não! Não pode. Mas de carro sim, adoro… Já tive um encontro com um leopardo. Eu estava sozinha, de carro. Foi o máximo. Quando você está sozinha, você sente que tem uma força diferente… Eu comecei a me ligar nessa coisa de xamanismo depois do primeiro ano que eu cheguei lá. Comecei a estudar e a ver que havia essa conexão forte com os animais. Aí pesquisei muito o tema ‘safari xamãnico’, para saber se alguém estava fazendo esse tipo de trabalho, mas não encontrei nada! Eu pensei ‘nossa, como é que ninguém ainda juntou safári com xamanismo?!’. Aí, depois de pesquisar muito, acabei descobrindo uma xamã norte-americana chamada Julie, que vive no Colorado, EUA. Sincronicamente, ela estava pra vir a Botswana com um grupo, realizar uma vivência. Entrei em contato para manifestar meu desejo de participar, mas acabou que ela cancelou o trabalho por falta de participantes. Aí propus que ela viesse fazer o workshop lá no camp. Antes de vir, porém, ela fez uma jornada para mim e me mandou um email incrível relatando todas as visões e mensagens que ela recebeu… Falava sobre como foi que eu cheguei à África, quais os animais que me guiaram nesse caminho, coisas muito profundas que me fizeram compreender ainda mais tudo aquilo, o porquê de eu estar lá. Então ela foi pra lá e fez o workshop xamânico no espaço de uma mulher que tem um trabalho de ‘safari yoga’ e foi ótimo. Daí comprei muitos livros sobre o assunto e, desde então, tenho adotado a jornada xamãnica como um meio de auto-orientação, uma forma de me aconselhar. Faço minhas jornadas em busca de auxílio para tomar decisões… Enfim, encontrei minha forma de me comunicar com meus animais. Então foi um envolvimento forte que tive com esse tema nos últimos dois anos.

Janaina MatarazzoNathalia – E como foi essa relação com o lugar e com os animais lá, você tem outros relatos como do escorpião ou da cobra?

Janaína – Sim, há muitos relatos, porque eu sempre via alguma coisa quando estava sozinha. Aliás, eu tive muitos momentos de solidão. Chorei muitas vezes… Foi bem difícil esse processo de digestão e de adaptação. Porque eu larguei tudo, trabalho, país… Tudo! E fiquei dois anos sem ganhar dinheiro no camp. Foi difícil lidar com o medo de estar fazendo a coisa errada. Eu estava feliz, mas havia muitas dúvidas. E se aquilo não desse em nada? Vai que eu estava lá perdendo meu tempo, em lugar de construir uma carreira? Mas falando sobre a questão com os animais, eu tive muitos encontros que senti como algo muito mágico e especial. Porém também tive experiências que tratei com mais naturalidade, achando que talvez fosse exagero tentar encontrar algum sentido oculto… Então eu fico oscilando entre sentir que há sim uma verdadeira conexão maior por trás dos acontecimentos e, em outros momentos, eu mesma desacredito em tudo isso e penso que as coisas simplesmente são como são. É que você está vivendo aquilo todos os dias, então chega uma hora em que quando um animal se aproxima de você é apenas um animal que se aproxima e é só, nada além.Janaina Matarazzo

Nathalia – Mas e quando essa aproximação é mais tensa ou perigosa, como você experimenta esse tipo de contato?

Janaína – Ah, por exemplo, os elefantes ficam lá rodeando o camp, é normal… Você os vê lá e acha tudo muito lindo, mas, de repente, vem um meio nervoso pra cima de você agitando as orelhas e o seu coração pára na boca! Aí você diz ‘ué, mas peraí, cadê aquela nossa conexão sagrada?’. Ou seja, tudo isso se perde porque você fica com medo do que pode acontecer, né?

Nathalia – E o que se pode fazer nesse caso? Como você se defende?

Janaína – Ah, não se defende, não há o que fazer. Conheci um australiano muito bacana que trabalhava com zoológico e foi fazer uma pesquisa com os elefantes em Botswana. Ele queria fazer algo baseado no trabalho dos mahuts, que são aqueles domesticadores de elefantes que fazem o safári montados no animal. Então, esse rapaz australiano tinha um projeto envolvendo um elefante que ele vinha treinando, mas aí ocorreu que um dia esse elefante o matou. Quando isso aconteceu, minha cabeça ficou assim não entendendo mais as coisas, sabe? Isso me chocou um pouco. Havia também um menino da comunidade que amava os bichos – o que é incomum por ali, já que os locais costumam ver os animais ou como ameaça ou como carne pra comer. Mas esse menino era diferente, ele realmente amava os animais e aí aconteceu que ele acabou sendo morto por um hipopótamo.

Nathalia – Olha só…

Janaína – Porque os bichos funcionam assim: se eles se sentem ameaçados eles matam. Para um animal selvagem tudo é perigoso, a selva é muito perigosa, porque você sabe que alguém pode te matar a qualquer momento. A selva é um mundo lindo, mas é tenso! Não há uma espécie na natureza que pode sossegar. Todos os animais que possuem algum predador têm que ficar espertos. A águia vai pegar um esquilinho fofinho que está ali dando mole. A cobra vai comer o camaleão… Outro dia, apareceu um lindo filhote de lagarto no camp. E então, de um dia para o outro, ele sumiu. Eu tenho certeza de que uma cobra foi lá e o pegou. Quase chorei por conta desse lagarto! Então a coisa é assim. Mas eu não gosto de ver o leão matando a zebra, porque ela sofre… Até hoje é algo que eu não gosto de assistir.

Nathalia – Apesar de isso ser algo natural.

Janaína – Então, nesse sentido é um baita aprendizado. Porque aí você percebe que o mundo era assim… É selvagem. Aí, voltando àquele lance da ligação espiritual, você pega duas pessoas que tinham o maior amor e conexão com os animais, mas que foram mortas por eles. O que acontece comigo é que antes eu me sentia mais ‘crédula’, digamos assim. Hoje, há muitas coisas nas quais eu já não acredito mais. Entendeu? Ali é uma coisa nua e crua. Você nasceu, sobreviveu, reproduziu e morreu. Então eu sinto que ainda estou no processo de aprendizagem dentro de tudo isso. Porque, assim como todo mundo, eu também estou buscando o ‘sentido da vida’. Porque estamos aqui? Como chegamos aqui? Aí encontro alguma coisa que parece fazer sentido e fico lá acreditando, como agora que eu estou envolvida com o xamanismo. Mas então acontecem certos eventos que colocam tudo em xeque outra vez e me fazem olhar novamente para tudo isso tentando entender! Porque realmente aquele lugar é lindo, um mundo de sonhos… Mesmo quando você sente medo. Quando você vai ao banheiro e vê uma cobra, por exemplo, é um baita susto que faz seu coração disparar por uns 10 minutos! Ou então, numa noite em que você está sozinho, só com a luz da lanterna, indo pra tenda… Você fica assim meio ligado, atento. Porque tem que estar atento! Há dias em que não vai ter nada lá, mas em outros terá. E essa sensação da coisa latente, desse encontro que pode vir a acontecer em algum momento é algo que fica muito ‘aceso’ em você… E isso, de certa forma, te faz bem.

Nathalia – Porque você se sente vivo.

Janaína – Exatamente. Lá você se sente, de fato, vivo! Você só tem a certeza de estar aí agora. Então você está vivendo naquele instante, presente no momento de estar vivo. E isso eu acho que é um negócio que… Não sei, ali de repente parece estar a ‘resposta’ de tudo. Naquele ‘ali’…

Janaina MatarazzoNathalia – E isso talvez supere qualquer filosofia que ultrapasse ‘aquele momento’… Ou que tente explicar qualquer outra coisa além…

Janaína – É… E é curioso, porque nós brasileiros somos muito emotivos, mas chegou um momento em que eu já não chorava mais. Chegou a passar uns dois meses sem eu ter chorado uma única vez. Tive sim uma fase de choro, mas depois entrei nesse estado em que não tinha mais muito riso ou choro, sabe? Aí, às vezes eu concluía que não é preciso chorar… Para que chorar? Às vezes eu me pegava chorando e me perguntava pra que aquilo, me fazia parar logo com isso. Sabe? Porque parece que a gente precisa ficar inventando pequenos dramas a troco de nada, não é? Como se a gente precisasse se alimentar desses ‘draminhas’. Eu tive muitos momentos de aprendizado solitário, que me fizeram pensar em coisas que nunca havia pensado antes. Porque, estando lá, o tempo inteiro você fica vendo o ‘nascer’ e o ‘morrer’…

“Você só tem a certeza de estar aí agora. Então você está vivendo naquele instante, presente no momento de estar vivo. (…) E ali de repente parece estar a resposta de tudo… Naquele ‘ali’.”

Nathalia – É o lagarto bonitinho que estava aqui ontem e cadê ele hoje?

Janaína – Então… Você fica presenciando esse ciclo o tempo todo. Nas comunidades, por exemplo, em que o índice de AIDS é muito alto, é gente morrendo toda hora. No começo eu ficava muito chocada. Aí, certo dia, um empregado do camp comentou que alguém da família dele morreu. Eu perguntei se ele estava muito triste, mas ele pareceu nem entender a pergunta. Tipo, eles até estão tristes, mas é algo que não deve tomar muito da atenção, porque daqui a uma semana vai morrer mais alguém, mais um sobrinho, um primo… Entendeu? Aí nasce outro e morre outro, toda hora. Eles meio que lidam com isso igual aos bichos, sabe? E vendo isso eu me perguntei: ‘Será que é isso, então? Não precisa ficar chorando, fazendo drama? Será que é só viver e morrer mesmo e pronto, acabou?

Nathalia – E em que ponto você se encontra hoje nesses pensamentos?

Janaína – Acho que agora sinto menos desejo de querer entender muito. Estou mais focada na sobrevivência, no trabalho… Até costumava escrever bastante, mas agora já está bom. Está na hora de concretizar projetos e coisas que quero mostrar. Talvez na próxima exposição eu fizesse um texto bem grande e, de repente, uma foto do mesmo tamanho… Mas não sei, porque é difícil falar sobre o que está por trás daquela imagem. Acho que estou nessa fase de tentar digerir para poder falar sobre a experiência… Ainda não estou conseguindo traduzir o que está sendo tudo isso. O que eu tenho a dizer sobre minha vivência na África? O que foi que eu aprendi que poderia transmitir a alguém?Janaina Matarazzo

Nathalia – Qual o caminho para essa obra, a mensagem…certo?

Janaina – Isso aí… Qual a mensagem? Uma das conclusões que se aprende lá é que na vida você tem que ser forte, você tem que sobreviver. É a lei da selva, mesmo. Até essa questão do choro fica para mim como uma coisa que eu já não me permito muito. Eu me faço engolir o choro. Porque você tem que ser forte… E tem que estar esperto, se não já era! É a lei de todos lá. A águia está logo ali, no alto da colina, olhando para baixo e escolhendo quem será o almoço. Ouvi dizer que no Budismo acredita-se que os animais estão num nível de consciência muito inferior a nós, seres humanos… Mas eu não estou muito certa disso. Quando eu vejo uma águia ou um leão, sinto como se eles estivessem anos-luz à nossa frente, espiritualmente.

Janaina MatarazzoNathalia – Eles parecem viver na sua plena potência, né?

Janaína – Em tudo eles parecem mais avançados! Os bichos aproveitam a natureza… Eles param para ver o por-do sol! Eles sabem apreciar o nascer do sol, sabem respirar o cheiro da grama…

Nathalia – Como você pode saber que eles sabem tudo isso?

Janaína – Ah, então… Não sei, mas é o que eu sinto. Sinto que eles sabem tudo o que há de precioso na vida, tudo. Mas eu fico triste de ver como a natureza está sofrendo. Já me peguei chorando muito por observar as coisas que estão acontecendo. Por outro lado, acredito na força da Mãe Terra.  Acho que quando ela chega com esses desastres naturais, aí ela põe pra quebrar. E penso que talvez isso exista, mesmo… Que, no momento oportuno, a natureza vai fazendo o movimento que precisa ser feito. Mas o importante é dizer que os animais estão aproveitando a vida e a natureza de uma forma que a gente não está. Quer dizer, não digo isso para fazer as pessoas se sentirem culpadas. E mesmo quando estou falando sobre projeto de conservação, não quero que ninguém fique se sentindo mal, se sentindo culpado. Até porque eu acredito que as pessoas estão mesmo querendo mudar. Acho que a consciência está aí e eu tento ser afirmativa. Acredito que tudo irá acontecer naturalmente. Há pessoas que dizem ‘oh, não temos mais tempo’… Acho isso um horror. Nada disso, nós temos tempo sim… Tem tempo.

Nathalia – E a vida sempre vai encontrar uma forma de continuar… A vida não precisa da gente, nós é que precisamos da vida.

Janaína – Sim, a vida sempre vai continuar. Mas essa pegada negativista é algo muito presente lá. Essas organizações que carregam essa bandeira do ‘nós estamos destruindo tudo’ e fazem todo mundo se sentir mal… Eu quero cada vez mais ficar fora desse tipo de pensamento. Às vezes é difícil não cair nesse lugar quando se aborda certas questões, mas todo mundo lá tem consciência e a vida é difícil para todos. É complicado mudar. Então acho que cada coisa vai se encaixando e vai melhorando.

"Sinto que eles sabem tudo o que há de precioso na vida, tudo."
“Sinto que eles sabem tudo o que há de precioso na vida, tudo.”

Nathalia – E quanto ao rio em frente ao camp… Como ficou a situação?

Janaína – Então, quando eu fui para lá, em 2008, o rio já estava quase seco há uns vinte anos. Há um ciclo das águas, que pode ser de quarenta em quarenta anos ou de vinte em vinte anos, algo assim. Aí, como falei antes, o governo cercou a região impedindo o acesso dos animais selvagens à parte do rio que ainda tinha água. Mas aconteceu um fato incrível! Começou a correr o boato de que uma forte enchente se aproximava do delta que alimenta a bacia hidrográfica do país. Nós tínhamos a esperança de que, com isso, o rio em frente ao camp se abastecesse e voltasse a encher. Chamamos um especialista para fazer um estudo. Ele chegou lá no camp, abriu um lap top cheio de gráficos e, baseado nesses dados, concluiu que a água dificilmente chegaria até ali, quase improvável. Disse a inundação atingiria no máximo alguns pontos da cidade e outros locais, mas não ali. Bem, eu nunca acreditei em cientistas… Eles sabem muito, mas não podem saber tudo! E veja só: não apenas o rio voltou a fluir, como também não parou mais! Está lá… Muita água! Chegou até em lugares que já estavam secos há uns 50 anos.

jana-elefantes4Nathalia – Bem, e agora você sente que está em que etapa no seu processo? A África é algo que continua ou já está caminhando para o fim, para uma mudança de ciclo?

Janaína – Acho que a África continua. O Peter, meu namorado, é cineasta… Conheci ele no camp. E foi um contato que, de repente, me fez começar a pensar na possibilidade de produzir uma filmagem lá. Fui com ele para Los Angeles, porque ele produzia muitos programas de TV. Agora está começando a fazer filmes de ficção. Eu me vi naquele mundo de Hollywood, me perguntando o que eu estava fazendo ali… E fiquei tentando entender qual a conexão por trás disso tudo, qual o motivo de eu estar naquele contexto. Pensei ‘então será que é isso? Será que eu devo escrever um filme sobre a África?‘. Mas o que eu falaria? Essas informações todas ficam gravitando na minha cabeça, como uma teia… A teia da aranha, que no xamanismo, é o significado da vida… A teia, a internet, a conexão de tudo. Então, pensando nisso, acredito que a África nunca vai acabar para mim. Eu estou feliz de estar aqui em São Paulo agora, olhando a cidade pelo lado das oportunidades, das portas que podem se abrir e achando o máximo o fato de que aqui você pode pegar um microfone falar o que quiser. Porque você não vai fazer isso na África. É na cidade que você tem a possibilidade de concretizar as coisas. Mas, às vezes, também preciso ficar quieta no meu canto, ficar lá um pouco sozinha… Porque a gente fala dessa bolha de São Paulo e é real. É um segundo pra coisa começar a te enlaçar. Então, há um lado em mim que fica me dizendo que eu deveria ficar um pouco mais aqui, articulando projetos e parcerias etc, mas aí eu percebo que já deu e é hora de sair fora. Porque senão você começa a se enredar.

Nathalia – Você consegue perceber algum aspecto em você que tenha mudando após esse contato com a África? Quem é Janaína antes e depois dessa experiência?

Janaína – Olha, acho que eu nunca mudei, sabia? Sei lá. Sempre fui assim… nunca gostei de pentear o cabelo. Acho que eu só fui aprendendo coisas sobre a vida, entendendo como funcionam as coisas. Mas eu mesma sempre fui assim. Olha isso: acho que nunca mudei! Amadureci, mas não mudei.jana-pessoas3Fotos de Botswana: Janaína Matarazzo – Nature Inspires Life